Crónica única – Vilar Formoso
Numa mini pausa, neste ano de
2025, fomos, quase que por acaso, parar a Vilar Formoso. Num dia em que as
previsões de frio e nuvens estavam anunciadas, mas que só acertaram no frio,
porque afinal as nuvens vinham carregadinhas de chuva, para além de uma brisa
considerável, o que tornou o passeio algo desanimador, uma vez que as
atividades previstas eram de exterior.
Assim sendo, acabámos por parar
em Vilar Formoso, que não estava previsto, para tentar fazer algo que nos
permitisse estar a seco, da bendita chuva que copiosamente teimava em cair.
Infelizmente, o museu alusivo à
história dos refugiados e do cônsul Aristides de Sousa Mendes estava fechado.
Numa praça, onde passa a linha de fronteira que separa Portugal e Espanha, uma
antiga locomotiva a vapor, destaca-se na paisagem. A estação ferroviária deve
ser uma das mais bonitas do país, com grandes painéis de azulejos, alusivos a
cenas típicas de várias regiões portuguesas. O edifício da Alfandega merecia um
restauro profundo.
Dia de feira na vila, que apesar
da chuva, estava movimentada. Pelas matrículas dos carros estacionados, os
grandes clientes eram do país vizinho, que freneticamente compravam nas bancas
de queijos e enchidos. Nós, em sentido contrário, fomos a Fuentes de Oñoro,
comprar massa fideo, muito difícil de encontrar em Portugal, mas que faz umas
paelhas deliciosas.
Após de reabastecermos, e com o
tempo mau a persistir, procurámos em Vilar Formoso, um restaurante onde nos
pudéssemos aquecer um pouco, dentro do espírito “tasca”, os nossos preferidos.
Numa breve pesquisa surge um nome
que se destacou, “O Velho”. Decisão tomada, e depois de alguma confusão do GPS,
conseguimos por fim, descobrir o restaurante, uma pérola para nós desconhecida,
e já vão entender o porquê.
Nome apropriado, uma vez que o
edifício já viu melhores dias. Ficando na Rua do Caminho Velho, pode ter sido
esse efetivamente a base do nome.
No seu interior, um espaço com
pouca luz, cadeiras de madeira, mesas corridas, toalhas de papel, que, para
além de servirem para as mesas, decoram também as paredes, com frases
gastronómicas. À entrada, um quadro escrito a giz, indica que o menu ao fim de
semana é 15 €, comida de tacho “i” grelhados, mas sem mais informação. Fomos
entrando e logo um senhor com ar descontraído nos diz “escolham uma cadeira e
sentem-se!”. Era o Sr. António, dono do espaço. Vai logo avisando que primeiro
há peixe, depois carne e ossos. Com tanta coisa, as doses devem ser pequenas…
pensamos nós. Logo a abrir o repasto, cai na mesa uma travessa gigante cheia de
tomate, grosseiramente partido, acompanhado de pedaços toscos de cebola-branca,
e tudo muito bem temperado. O tomate era dos que sabiam a tomate! Ponto muito
positivo definitivamente para a salada.
“Para beber, água, sumo ou
vinho?”. A escolha recaiu sobre água, que havia ainda muita estrada para fazer,
não sem ouvir um resmungo do Sr. António “um copito não faz mal nenhum…”. O
peixe tinha opção. Robalo ou Dourada. Opção pelo primeiro. Em 3 minutos, 2
robalos grelhados surgem numa travessa, e sacrilégio dos sacrilégios: tinham
cabeça! Intervenção rápida, tal qual um médico de trauma, e as cabeças
desaparecem. A Ana já tinha almoço! Espanhóis iam entrando, e tudo se repetia
de igual forma. “Rubina ó Dorada? Zumo, aqua ó Vino?”. A meio da “pescaria”,
uma enorme travessa de batatas fritas, das verdadeiras, aterra na nossa mesa.
Quentinhas e estaladiças. Correspondemos com algum apetite. O peixe estava bom,
bem grelhado, temperado no ponto.
Entretanto, na mesa foram
deixados dois pratos, ainda daqueles antigos, brancos, e que se compravam em
Badajoz nos anos 80, e como que por artes mágicas, o Sr. António “descarrega”
duas travessas. Uma com 4 costeletas de porco grelhadas e outra com 2 ossos
gigantes de espinhaço de porco, acabadinhos de sair da panela, e a largar um
cheirinho maravilhoso. O molho estava com uma cor divinal. Depois do tomate, de
meia travessa de batatas fritas e do robalo, o apetite já não era muito. Mas os
ossos estavam imperdíveis. As costeletas, a Ana garantiu estarem boas, porque
eu nem me fiz a elas, atacando sem rodeios um ossão. O Sr. António de passagem
ia comentando “amigo, os ossinhos comem-se à mão”. Mal sabia ele estar a falar
com um catedrático do comer à mão. Mas estava tanto frio, que só de pensar ter
de ir lavar as mãos outra vez, optei pela forma, errada, mas “finesse”, de
papar os ossinhos, num excelente trabalho de faca e garfo.
A sobremesa, leite creme, não
estava má, mas nada que se comparasse ao festim anterior. Para finalizar,
apareceu um garrafão castanho na mesa, com a informação de “antibiótico”.
Excelente para finalizar e digerir tudo aquilo. Antes que alguém perguntasse,
foi logo informado “Café? Não temos. A máquina está avariada e só vêm arranjar
amanhã”. Mas na realidade não serve café.
Em resumo, para lá de uma simples
paragem, de umas compras em Espanha, Vilar Formoso, ficou no nosso radar, por
esta experiência simples e verdadeira em todos os sentidos, quer pelo espaço em
si, pela forma do serviço, enfim, por tudo. Não aconselhável a pessoas mais
“impressionáveis”. Mas não sabem o que perdem… Tudo isto a 15 € por cabeça.
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