CHEFCHAOUEN,
A CIDADE AZUL
Embora a distância que nos separa de Marrocos, não seja assim
tanta, as diferenças entre os dois países são marcantes e fascinantes.
De um lado, Portugal, continente europeu, com uma profunda
história ligada à expansão marítima e à cultura ocidental. Do outro lado,
Marrocos, continente africano, com raízes árabes, berberes e islâmicas, que
moldam o seu modo de vida, arquitetura e tradições.
O contraste é por vezes gigante, e apesar das diferenças, há
também muitos laços históricos que unem os dois países. Durante séculos,
partilhamos rotas comerciais e trocas culturais. Longe vão os tempos de guerras
e conquistas, para trás deixámos Alcácer-Quibir. Hoje os tempos são de
cooperação, e Marrocos é um dos destinos de eleição de muitos milhares de
portugueses.
É esta diversidade, que torna o mundo mais rico e
interessante, e que nos impele a descobri-lo.
A crónica desta semana vai-se focar na cidade de Chefchaouen,
também conhecida por cidade azul.
Esta viagem foi feita no primeiro dia em que Marrocos voltou
a abrir as portas no malfadado período do COVID. A sede de viajar era tanta,
que aproveitámos logo esta abertura de fronteiras, para libertar esta ânsia que
nos abafava.
Com os conturbados tempos que se viviam à época, em termos de
mobilidade, desta feita optámos por uma viagem organizada, Go On Travel, https://goontravel.pt/.
A viagem, feita de autocarro, teve o seguinte programa (muito
resumido):
Saída ao final do dia de Lisboa, com destino a Algeciras.
Noite a bordo do autocarro, com algumas paragens. Ferry para Algeciras
1º dia – Tânger. Almoço. Viagem para Tetouan, Alojamento
Hotel 4*. Jantar
2º dia – Chefchaouen. Almoço. Tetouan. Hotel 4*. Jantar
3º dia – Tetouan. Almoço. Ferry para Algeciras e
regresso a Portugal
Viagem tranquila, num autocarro com lotação a 50% pelas
restrições impostas, com um grupo de viajantes bastante simpático. Travessia de
ferry rápida e tranquila também, e, encontro com o guia marroquino, um
senhor já com alguma idade, mas com um espírito super jovem. Muito simpático,
sempre num castelhano muito fluente, e bastante eloquente nas suas descrições.
Foi-nos proposto uma alteração de programa, de modo a
incluir mais uma cidade a visitar, deste feita Arzila, e concordância a 100%.
Assim sendo, partimos de imediato para Tetouan, também
conhecida por “Pomba Branca”, pela cor dominante na cidade. Tem uma Medina
lindíssima, Património Mundial da UNESCO.
E assim que chegamos, somos de imediato envolvidos num
turbilhão de cores, cheiros e sons, que, particularmente a nós, nos encanta.
Que saudades disto! Os vendedores, os clientes, as motas, tudo isto circulava
freneticamente naqueles estreitos labirintos, que nos impelem a avançar cada
vez mais no seu interior, para descobertas deliciosas, de pequenos recantos
escondidos. Da parte da manhã com “escolta policial”, mas é mais cenário do que
ser perigoso. Pareceu-me mais uma forma de os polícias ganharem “uns trocos”.
Atrás de velhas e gastas portas de madeira, artesãos
trabalhavam o couro, prata, tecidos, madeiras, em gestos repetitivos, sem
grandes alterações ao longo de séculos. O cheiro das especiarias, aromatizavam
este ambiente, e muito rapidamente tivemos de parar para beber um chá de menta.
Que delícia!
Na zona das bancas de frutos secos, um vendedor de tâmaras,
ofereceu-nos umas para provar, e, vêm certamente todas do mesmo sítio, mas
comidas naquele ambiente, não se comparam com as que possamos adquirir em
Portugal. Há coisas que parece que só localmente combinam, ou pelo menos, têm
um gosto diferente.
Depois do almoço, e já sem escolta, voltámos para esta
confusão organizada, e por ali ficaríamos horas, não tivéssemos de ir fazer o check-in,
não sem antes beber mais um chá de menta, entre várias “fugas” a insistentes
vendedores de tapete, e uma passagem pelo bairro judeu da Medina. Pôr do sol e
ecoam pela cidade as chamadas para a oração.
Jantar no hotel, com bastante chá de menta, e dormir para
recuperar forças para o dia seguinte.
Segundo dia, praticamente dedicado ao motivo principal desta
viagem, a cidade de Chefchaouen. Pequeno-almoço marroquino com pão tradicional,
azeitonas e queijo fresco local o jben! Que forma deliciosa de se
começar o dia, claro está, tudo devidamente acompanhado com um delicioso chá de
menta.
Chegada à cidade azul, e entrámos num sonho pintado à mão! As
estreitas ruas completamente ladeadas de um azul-celeste, como se fosse uma
reflexão do céu, dá um encanto e um charme à cidade, que só estando lá se
consegue compreender. As portas vão variando entre vários tons de azul:
azul-marinho, azul-cobalto, azul-escuro, azul mais claro.
A cidade tem recantos muito tranquilos, e tivemos a sorte de
haver muito poucos turistas. Num ritmo vagaroso, os habitantes vão fazendo as
suas compras, e os vendedores das muitas lojinhas, vão sorrindo a quem passa, e
cumprimentando quem conhecem. As longe vai-se ouvindo mais uma chamada para a
oração.
Dizem que esta cidade começou a ser pintada desta cor, pelos
judeus, que acreditavam que o azul aproximaria as pessoas de Deus.
Em contraste, quase tudo o que se vende nas lojas locais, têm
cores dentro dos laranjas e vermelhos, e, juntamente com alguns apontamentos de
azulejos árabes, cria spots fotográficos maravilhosos. Há pontos na cidade com
uma concorrência desmedida pelos “istangramers”.
Cidade de gatos, que preguiçosamente dormem ao sol, compondo
a beleza da cidade. Com sorte, apanham pão acabado de cozer. Não hesitem e
comprem um, e inalem profundamente todo o aroma que se sente na rua. Aproveitem
pequenas esplanadas, em estabelecimentos locais, para tomar um chá de menta com
os habitantes locais, que rapidamente metem conversa em castelhano.
Depois do almoço, num restaurante com uma vista fantástica
para a cidade, visitámos de novo a cidade, que com o sol mais baixo, ganhou
outras tonalidades e os mesmos locais da manhã, ganharam uma beleza diferente,
parecendo quase como que uma cidade nova.
Voltam a ecoar nos minaretes, o chamamento para a oração, e
está na hora de nos despedirmos desta linda cidade, criada justamente, segundo
a história, para servir de base aos muçulmanos que pretendiam travar o avanço
dos portugueses em Marrocos.
Regresso a Tetouan, para a última noite e jantar.
No último, o dia começou pela visita, não prevista, a Arzila,
que foi possível pela alteração que fizemos logo no início ao programa
pré-definido.
Arzila é uma pequena cidade costeira, com muito charme, numa
mistura perfeita entre o mar, a arte e a tranquilidade. Praticamente visitámos
a cidade antiga sem ver vivalma. As cores predominantes na cidade são o branco
e o azul, interpelados por coloridos murais, feitos por vários artistas de todo
o mundo, tornando a cidade numa galeria ao ar livre.
Imperdíveis as vistas das muralhas antigas, com vistas
panorâmicas para o oceano, muralhas estas construídas por antepassados nossos,
uma vez que Arzila teve domínio português por muitos anos.
E partimos para o último destino desta viagem, Tânger, não
sem antes fazermos uma paragem nas grutas de Hércules. São um conjunto de
cavernas, numa mistura de naturais e outras partes já com intervenção humana,
desde o tempo dos Fenícios. Foi aqui que Hércules terá descansado, após ter
completado os seus 12 trabalhos. Uma das grutas tem uma abertura voltada para o
mar, cujo contorno se assemelha ao do continente africano.
Agora chegamos a Tânger, também ela cidade costeira, mas já
bastante mais cosmopolita que as anteriores visitadas, e onde o Mar
Mediterrâneo se encontra com o Oceano Atlântico, no Cabo Espartel. A Medina,
como sempre, é um labirinto vivo, com uma identidade sempre própria e
indiferente ao desenvolvimento em seu redor. Mais um chá de menta, num pequeno
café, e tempo de ir almoçar, num restaurante bem simpático.
E chegou a hora do regresso. Pela estrada que liga ao porto,
vários refugiados de outros países africanos, vão-se amontoando nas bermas, em
tentativas desesperadas de saltar as cercas do porto ou conseguir uma escondida
boleia nos muitos camiões que atravessam para a europa. À entrada todos os
veículos são minuciosamente fiscalizados.
Após um grande atraso na partida, mais uma travessia
tranquila e aproveitámos para jantar a bordo, e fazer umas compras no Free
Shop do ferry. Viagem noturna até Portugal.
Em resumo, Marrocos envolve-nos sempre num turbilhão que
fazem despertar imensamente os nossos sentidos. Um país de contrastes, e de
gente hospitaleira, que caminha para a modernidade, mantendo a simplicidade das
suas tradições. Mesmo aqui ao lado!
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