ÉVORA - Crónica

ÉVORA

Num frio dia de inverno, visitámos Évora, com calma, como a cidade nos pede. Um local repleto de história!

Conseguimos lugar para o automóvel num parque mesmo ao pé de uma das portas da cidade, talvez por ainda ser cedo, e começou assim a nossa exploração do dia.

Com o frio que se fazia sentir, o primeiro destino seria o Café Arcada, emblemático ponto de encontro da cidade, na Praça do Giraldo, desde 1942. Café e empada de requeijão não podiam faltar, para nos dar calor e energia, num dia que se avizinhava longo.

Aproveitámos para visitar a Praça do Giraldo, onde todos os caminhos de Évora vão desembocar. Esta Praça é uma homenagem a Geraldo Geraldes, também conhecido pelo Sem Pavor, e que, em recuados tempos de reconquista, tomou esta cidade aos mouros, em 1167. No centro da Praça, uma fonte de mármore em estilo barroco, com 8 bicas, associadas às 8 ruas que aí vão terminar. Num dos seus topos, encontra-se a Igreja de Santo Antão, mandada erguer pelo Cardeal D. Henrique no século XVI.

De má memória, era também aqui, nesta Praça, que decorriam os autos-de -fé e punições públicas de hereges, durante o negro período da Inquisição.

Por último, uma nota para a arquitetura dos edifícios da Praça, com as suas arcadas, o que lhe confere uma beleza mística e profunda.

Segunda paragem, aconteceu no Templo de Diana, após um agradável percurso pelas ruas alentejanas, pouco povoadas ainda, apenas com uma ou outra senhora idosa a passear o cãozinho. Este templo, é um dos mais bem preservados templos romanos no nosso país. É Património Mundial da UNESCO desde 1986. Évora, ou Ebora para os romanos, era uma cidade com bastante importância, sendo um centro vital de produção agrícola, nomeadamente trigo, que aqui se cultivava em abundância.

Foi construído no século I, em homenagem ao Imperador Augusto, que muitos romanos veneravam como um deus. Com as invasões bárbaras, sofreu muitos danos. Já foi casa-forte do castelo e matadouro. Mesmo ao pé do Templo, o Jardim de Diana, com um miradouro muito interessante para uma parte da cidade, onde merece a pena parar um pouco e absorver e contemplar a bela e bucólica paisagem alentejana.

Aproveitem, estando próximos, para visitar o Colégio do Espírito Santo, um dos mais importantes edifícios da Universidade de Évora. Imóvel com uma magnificência enorme e carregado de história. A Universidade de Évora foi a segunda a ser fundada em Portugal, sendo a primeira a de Coimbra. Existe desde 1559 e era dirigida pela Companhia de Jesus. Contudo, com a expulsão dos jesuítas no século XVIII, a mando do Marquês de Pombal, a universidade encerrou, voltando apenas a reabrir em 1973, por mão de Veiga Simão. Voltando ao edifício, tem planta quadrangular com um grandioso claustro. Ao centro, uma fachada lindíssima da antiga capela, com um grande pórtico de mármore, encimado por uma pomba. Sempre que encontrar esta pomba esculpida no mármore, está num edifício da Universidade de Évora. Imperdível a sala dos Atos, um dos espaços mais imponente do Colégio. Se conseguirem, entrem nas diversas salas, que estão decoradas com lindíssimos azulejos, alusivos às matérias que aqui se aprendiam, como astronomia, matemática, entre outras.

Não muito longe, dois pontos de interesse: a Sé Catedral de Évora ou o Palácio Cadaval. Optámos pela visita ao primeiro, a maior catedral medieval do país! Na rua de acesso, muitas lojas de interessante artesanato alentejano. Esta catedral começou a ser construída no século II, e toda ela é de granito. Marca a transição do estilo românico para o estilo gótico.

Muitos anos depois, no século XVIII, foi construída a capela-mor, com especial destaque para a utilização dos mármores de Estremoz.

O seu interior é riquíssimo em arte sacra, e a visita é mesmo a não perder. O seu terraço, tem uma das melhores vistas de Évora, uma vez que a Catedral se encontra num ponto elevado.

Continuámos a deambular pelas ruas da cidade, um pouco à descoberta, e um aroma surpreendentemente agradável, saia de um pequeno restaurante.

O ensopado de borrego já estava pronto e logo ali ficámos. Se o cheiro era aquele, o sabor deveria ser ainda melhor. E era! Um tinto regional acompanhou o repasto, não sem antes termos de entrada, umas belas azeitonas e umas fatias de pão de cabeça, com aquele trago ácido, tão característico e tão delicioso. Para o grande final, uma encharcada, que nos deu a energia necessária para o resto do dia.

O próximo ponto foi a Capela dos Ossos, um dos ex-libris da cidade, mas com uma vertente algo sinistra. Construída no século XVII, por 3 frades franciscanos, pretende transmitir a mensagem da nossa transitoriedade terrena.

Logo à entrada, um aviso informa: “Nós ossos que aqui estamos, pelos vossos esperamos”. Para pessoas impressionáveis, a visita não será muito aconselhável. O local é pouco iluminado e o silêncio muito profundo. As paredes da Capela e os seus pilares estão revestidos de ossos e crânios humanos, cuidadosamente alinhados. O espaço deve ter mais de 5 000 caveiras humanas e muitos mais ossos, provenientes de cemitérios da cidade. É uma experiência do outro mundo, mas imperdível, pela sua peculiaridade, apesar de muito estranha.

Sempre a deambular pela cidade, como gostamos de fazer, que é perdermo-nos um pouco pelas urbes, dêmos de caras com as Termas Romanas da cidade, que ocupam uma parte da Câmara Municipal. Supõe-se que terão sido construídas nos séculos II ou III, e foram apenas descobertas nos anos 80. Como se sabe, as termas desempenhavam um papel importante na vida dos romanos. Para além de questões de higiene, as termas eram locais de eleição para convivência social e até negócios, numa autêntica sala de reuniões. Um costume que não perdurou até agora no nosso país, apesar de muito apetecível, mas que ainda subsistem noutras culturas por influência romana, como os banhos de Budapeste ou os banhos turcos.

Passámos também, nesta nossa incursão, um pouco sem rumo, pela cidade de Évora, na Igreja da Graça, mas sem visita ao interior, por estar encerrada. Contudo, a sua belíssima fachada, merece uma pausa para apreciar tamanha beleza arquitetónica.

Por último, fizemos uma volta pelo exterior da sua cerca medieval, passando por todas as portas de entrada da cidade, e de onde destacamos o Aqueduto da Água de Prata. Foi construído no século XVI, com base no antigo aqueduto romano que abastecia a cidade. Com esta nova construção, foram construídos vários chafarizes monumentais, que subsistem ainda hoje, e que abasteciam a cidade deste precioso líquido. Apreciem as casas que foram construídas, utilizando os arcos do aqueduto, e que se anicham nos vãos, criando um aspeto pitoresco de relevo arquitetónico muito peculiar.

Évora é uma cidade onde o tempo caminha devagar e que guarda séculos de história. Um local onde nos podemos encontrar com o passado, e onde, ao virar de cada esquina, com atenção, descobrimos detalhes interessantíssimos. Um local para descobrir com vagar, perspicácia e curiosidade.

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