Dia 1 - 22 dezembro 2023
Início da aventura no reino saudita,
berço do islamismo. O atraso substancial de seis horas do voo Istambul-Jeddah,
obrigou-nos a adaptar o programa inicialmente previsto, que tentaremos
recuperar. Neste voo ficámos com a sensação de sermos diferentes. Éramos
praticamente os únicos em que o homem não estava enrolado em panos brancos, e a
mulher vestida de negro da cabeça aos pés. O avião estava cheio de peregrinos
para Meca. Até nos deram o kit peregrino no voo: uma mochila, uns pezinhos para
calçar e um contador eletrónico para colocar no dedo, que só no último dia no
país percebemos para que servia.
As formalidades de entrada foram pouco
demoradas, uma vez que tínhamos feito em Portugal o E-Visa. Levantámos a
viatura que nos acompanhará nos próximos dias. Marcado um Toyota Yaris,
entregue um MG, estofos em pele, bancos elétricos, automático, uma bagageira
que dá para 4 malas e nós com duas “mochilitas”. Isto é povo que nos sabe
receber! Quando saímos do parque deparámo-nos com algo que não esperávamos. Os sinais
de limites de velocidade estão escritos em árabe! Por sorte, as matrículas são
“bilingues” e assim rapidamente aprendemos os números numa nova língua.
No hotel onde supostamente iríamos
dormir a primeira noite, e única reservada, estávamos às 07H30 da manhã a fazer
o check-in ou a dar a “cantada” para não nos debitarem o quarto. A rececionista
muito gentilmente percebeu o atraso do voo e cancelou a reserva. “No charge!
Thank you very much!”, e seguimos que estamos atrasados.
Abastecimento da viatura, com um
custo de 20 €. No país paga-se mais por água que por gasolina. Fazendo o
câmbio, a gasolina está a 50 cêntimos e o diesel a 20 cêntimos. O GPL é quase
dado. Nova paragem para comprar água, e primeira interação com algo de
Portugal: Ronaldo, “sssiiiiiiiiiiii”.
Primeira etapa prevista de quase
700 km, até ao deserto de Al Ula. Mas, com uma direta em cima, 30 graus de
temperatura, retas a perder de vista com dezenas de quilómetros e que tornam a
condução muito monótona, levou a um “pit stop” de emergência em Yanbu,
330 km depois, para descanso da “tripulação”. No caminho ainda apanhámos uma
mini tempestade de areia, e uma chuva diluviana, que em poucos minutos inundou as
planícies de areia e as estradas, de uma forma absolutamente espantosa. Tínhamos
previsto no percurso inicial uma paragem nesta cidade à beira-mar, apenas para
visitar o centro histórico, que tem vindo a ser recuperado. Durante o dia a
cidade foi dececionante e pouco interessante. Tirando o “chicken Biryani”
do almoço, a cidade não teve mais nada para nos oferecer. Yanbu tem uma
história rica, sendo ponto de descanso de antigas rotas comerciais, entre o mar
Mediterrâneo e o Iémen, e é a capital saudita do mergulho. Algumas praias
perto, mas desertas, sendo que são zonas da cidade que estão a ser totalmente
remodeladas, tal como o país. A quantidade de obras que se vão vendo pelo
caminho roça a loucura.
Lançado pelo príncipe herdeiro
Mohammed bin Salman em 2016, o projeto “Saudi Vision 2030”, assenta em 3
pilares: Sociedade Vibrante, Economia Dinâmica e Nação Ambiciosa. Este projeto,
bastante audacioso e futurista, leva-nos a um país que se encontra em profunda
transformação e a abrir-se ao mundo. Com a emissão de vistos turísticos desde
2019, tornou-se muito rapidamente num polo de atração do desporto mundial.
Contratação dos grandes craques futebolistas europeus, Fórmula 1, MotoGP,
Dakar, Mundial de Futebol em 2034, entre muitos outros. Pretendem diversificar
a sua economia e reduzir drasticamente a dependência das receitas do petróleo.
As suas tradições vão perdendo rigidez, aproximando-se aos poucos do Ocidente.
Vê-se isso nos direitos das mulheres. Hoje em dia, já não precisam de andar
atrás dos maridos quando andam na rua, podem conduzir, podem trabalhar fora de
casa e o “niqab”, véu que cobre o rosto, deixou de ser obrigatório.
Voltando à nossa tarde em Yanbu,
decisão de recuperar energias no hotel com uma retemperadora sesta, que eu
creio não fazer desde os 2 anos. Surpreendentemente, a noite é totalmente
diferente do dia, uma vez que depois do pôr do sol, a zona histórica ganhou
vida. Os restaurantes e as lojas do “souk” abriram, as esplanadas foram
montadas, as famílias fazem piqueniques nos relvados. Até os gatos apareceram
às dezenas, sendo que dois deles tiveram a sorte de terminarem o nosso jantar.
Os restaurantes locais são fantásticos e conseguimos fazer refeições para os
dois por 30 SAR, menos de 4 euros por cabeça. A maioria das mulheres anda de
preto e com a cara tapada, apesar de já não ser obrigatório, e as das lojas
interagem bastante connosco, e muitas na rua até nos cumprimentam. Para dizer a
verdade creio que éramos os únicos estrangeiros na cidade, ou pelo menos na
zona histórica. De súbito ecoam pela cidade os sons dos chamamentos para a
oração, nas várias mesquitas. Mesmo em frente da esplanada onde jantávamos havia
uma mesquita. Muito interessante a quantidade de crianças que foram sozinhas
orar. Uma chegou de patins em linha, e outra, mais pequena ainda, com a sua
mota elétrica, que cuidadosamente arrumou num cantinho para não atrapalhar.
Do que lemos sobre a Arábia
Saudita já detetamos duas inverdades: os sauditas não conduzem como loucos, e
as redes sociais não estão bloqueadas.
Arábia Saudita dia 2
23 dezembro 2023
Início do dia bem cedo, porque
tínhamos 450 km para fazer, até Al Ula. Pequeno-almoço no quarto, única forma
de ser servido, certamente pelas questões religiosas ainda latentes nos
restaurantes, com a “proteção” das famílias com espaços reservados, para as
senhoras poderem tomar a sua refeição de uma forma tranquila, sem a cara tapada
com o Niqab.
O dia de hoje foi a passagem das
vastas planícies junto ao mar, para as bonitas montanhas, oásis e desertos de
altitude. Dia de condução muito mais agradável, em estrada de montanha, mas com
piso excelente. A terra das pick-ups. Incrível a quantidade de veículos deste género
que se veem na estrada, ou jipes enormes! Aqui ainda não é muito consistente o
conceito de rotunda. Nalguns cruzamentos, se queremos ir para a esquerda, temos
de ir primeiro para a direita, fazer 500 m, e voltar para trás. Mandem alguém
de Viseu para cá por favor, que resolve isto numa fogachada.
Ainda tempo para dar boleia a um
saudi, carregado com um novo cobertor. Do diálogo que se instalou, só conseguimos
entender que ia para Medina. Lá nos fizemos explicar que íamos para outra
direção e num cruzamento ele pediu para sair. “Shukran! Shukran! Shukran!”
Chegada a Al Ula. Historicamente
está na Rota do Incenso, que se estendia do sul da Arábia até ao mediterrâneo.
Al Ula foi também a capital de um antigo e poderoso reino árabe, os lianitas.
Tem também o primeiro Património Mundial da Unesco no reino saudita, Hegra,
cidade construída pelos nabateus.
Visita ao Oásis da cidade, onde
ainda se vêm bastantes ruínas da antiga cidade que se escondia debaixo do
bonito palmeiral. Avisos para zonas de ninhos de cobras. De seguida visitámos a
“Old Town”, que está a ser completamente reconstruída, dentro do programa
“Saudi Vision 2030”. Uma cidade imensa, murada e construída de tijolos de lama
e pedra, que está a ser reabilitada com todo o pormenor e detalhe. Uma zona
comercial já está terminada, e a cidade labiríntica, apenas visitável de
momento numa pequena parte, e que liga a parte baixa à parte alta.
Passagem pelo Elefant Rock, um arenito
vermelho enorme, com uns incríveis 52 metros de altura e com a forma de um
elefante. Mesmo ao lado uma zona de lazer com bares e assentos escavados na
areia, onde se pode acender uma fogueira.
No topo da montanha mais alta da
zona, está o miradouro da cidade, com uma vista interessante para Al-Ula e para
as montanhas circundantes, que ao pôr do sol ganham cores de um amarelo vivo.
Também aqui uma zona de lazer está aberta.
Depois começou a odisseia do dia,
reserva de quarto. Esta viagem foi organizada para alojamento “free styling”,
sem nenhuma marcação para além da primeira noite. 1ª tentativa, hotel esgotado.
2ª tentativa meteu motorista de Uber, passageiro, infelizmente sem resultado,
Não se descobriu ninguém para dar informações num dos alojamentos selecionados.
3ª tentativa, ninguém na receção e um telefone. Ligou-se. Do outro lado a
pessoa não falava inglês. Por sorte alguém passou e entendeu a nossa questão e
lá falou em árabe. “Habemus” quarto! Caríssimo por sinal. Foi sem sombra de
dúvida o alojamento mais caro, que nada tem a ver com o resto do país. 100 €
por noite. A password do Wi-Fi estava escrita a caneta na parede perto do
elevador. Al Ula deverá ser neste momento o local mais procurado pelos
turistas, daí os preços apresentados. O início próximo do Dakar com partida
daqui, também deve contribuir para esta inflação de preços.
Saída rápida para a Old Town que
hoje é dia de festa na cidade, com o Festival Tantora, dedicado à cultura local
e onde Saudis em trajes tradicionais, nos oferecem café árabe com cardamomo e
tâmaras. Continuamos, até que nos pedem bilhete para podermos passar para o
interior da festa. 95 SAR cada um, o que dá 6 jantares para duas pessoas, ou 25
€. Terá de haver outra forma, ou não fôssemos “tugas”. Não se entra pela porta
principal, tenta-se as traseiras. E não é que funcionou? Na outra extremidade
da festa, onde já se aglomerava bastante gente e pelo que entendemos mais tarde
era o início da performance teatral, fomos entrando de “mansinho”, bebemos um café,
comemos mais tâmaras, enturmámos com os dançarinos Saudi e até nos convidaram a
entrar. Acompanhámos o desfile na primeira fila! Para final ainda comemos um
pão tradicional e mais um cafezinho com tâmaras, tudo delicioso. No regresso
para o carro, apanhámos o shuttle gratuito, e no banco da frente um adolescente
riu-se porque eu vinha a imitar o barulho de um F1, num carrinho de golfe.
Quando lhe dissemos que nós éramos de Portugal, o miúdo nem queria acreditar.
Malta do país do Ronaldo! Até nos mostrou um filme do sobrinho ao pé do
Ronaldo, a sair de um estádio. Já tem uma história para contar aos amigos.
Amanhã vamos visitar os nabateus.
Arábia Saudita dia 3
24 dezembro 2023
Início de dia bem cedo, porque é
dia de visitar os nabateus.
Pequeno-almoço numa padaria, com
pão acabadinho de sair do forno. Comido mesmo sem mais nada, com um sumo de
ananás fresco. Tudo por 1 €.
Tour para visitar a cidade de
Hegra, 2ª cidade mais importante dos nabateus. Transfer em autocarro da cidade
de Al Ula para Hegra, welcome drink e frutas desidratadas à chegada. Guia local
e transporte automóvel para os pontos de visita, distribuição de águas durante
as duas horas do tour, mais umas frutas no final e transfer para a cidade. Um
tour com um serviço fantástico, com um valor por pessoa de 95 SAR, cerca de 24
€, substancialmente mais barato que Petra, a cidade mais conhecida dos
nabateus, e que se localiza na Jordânia.
Quanto à cidade, uma grande parte
ainda está em escavações, mas já se podem visitar a maioria dos túmulos
esculpidos na rocha. Na rota de visita, figurantes vão aparecendo na paisagem.
Para quem já visitou Petra, o serviço é completamente diferente. Vendedores
ambulantes também não há, nem ofertas de serviços extras, uma vez que está tudo
excelentemente bem organizado.
Aliás, venda ambulante é algo que
não se vê no país. Nem nas zonas agrícolas se encontram as comuns bancas de
venda de produtos. No ponto oposto estão os radares, que são pragas! Ou se vai
com muita atenção aos limites, ou é foto na certa. Já passámos por algumas
dezenas, e creio que sempre dentro dos limites. Logo veremos se um dia destes,
teremos notícias em Portugal da polícia saudita.
Paragem para almoço num
restaurante de camionistas. Como em qualquer país do mundo, normalmente os
melhores! E este não foi exceção. Com pena nossa, as boxes de comer no chão
estavam todas ocupadas e colocaram-nos numa mesa. Por um manjar de reis, quer
na quantidade quer na qualidade, fomos servidos com um frango acompanhado de arroz
divinal, servido a preceito local, com cebola e pimento verde crus e limão. Para
beber a já tradicional Pepsi, que aqui álcool… não há. Por tudo isto, pagámos a
loucura de 7,50 € para os dois. Comido da forma tradicional teria sido um ponto
alto da viagem.
Uns km à frente, um saudi pedia
boleia. Claro que parámos e começou a odisseia de nos entendermos. Percebemos logo
de início que queria ir para Medina, e isso era fantástico uma vez que era o
nosso destino final do dia. Mas falava, falava, falava e não entrava. De inglês
nem uma palavra. Depois gestos, abrindo e fechando as mãos. Até que finalmente conseguimos
perceber que queria pagar e estava a dizer o valor que podia despender. Quando por
fim entendeu que não íamos cobrar nada, entrou de imediato todo sorridente.
Ainda tentámos o diálogo, mas era algo impossível. Ao princípio ficou meio
apreensivo, porque tinha acabado de entrar num carro de estrangeiros, que não
lhe cobravam nada pelo transporte e onde voavam mapas desdobrados, ao mesmo
tempo em que vídeos eram filmados e a música subia de volume para a banda
sonora. Mas percebeu estar em boas mãos, relaxou e passou 250 km a dormir que
nem um bebé. Nem o nome dele soubemos e no final “Shukran! Shukran! Shukran!”.
Hoje o aluguer do hotel foi à
primeira, sendo apesar de tudo algo estranho. Na Booking confirmámos haver pelo
menos um quarto. Fomos à receção e dizem-nos que estavam cheios…, mas que
tinham vagas via booking… ao balcão queriam 300 SAR, e marcámos na receção via booking
por apenas 211 SAR. Não podiam fazer nada disseram os empregados. Muito estranho,
mas regras são regras. Podiam ter recebido 211 SAR limpinhos e assim ainda vão
levar com a comissão.
Em Medina, impossível não visitar
a imponente Mesquita Al-Masjid-an-Nabawi, uma das maiores do mundo e onde o
profeta Maomé está sepultado. Foi originalmente construída pelo profeta Maomé
no ano de 622, e foi a terceira mesquita construída ao longo da história do
Islão. É o segundo local mais sagrado do Islão, sendo que o primeiro é a Grande
Mesquita de Meca. Está aberta 24 horas por dia. Na sua construção original, a
mesquita ocupava uma área de 30,5 m por 30,5 m, sendo que atualmente tem mais
de 400.000 m². Não sendo muçulmanos, não pudemos entrar, e apenas circular nos
pátios exteriores, gigantescos. Impressionante os milhares de pessoas, vindas
dos quatro cantos do mundo, que se encontravam no espaço religioso, dentro e
fora da mesquita. Segundo soubemos, às
sextas-feiras ainda tem mais pessoas e já estavam muitos e muitos milhares. Por
todo o lado constroem-se hotéis colossais, a juntar às várias dezenas que já
existem na zona da mesquita. Mais uma cidade estaleiro, com dezenas de obras a
decorrer, certamente dentro do projeto Arábia Saudita 2030. De repente, e pela
primeira vez, um senhor muito simpático dirigiu-se a mim esticando a mão para
me cumprimentar e para me dizer ser importante a Ana tapar a cabeça. Como a Ana
estava com traje muçulmano, foi só colocar o barrete do fato e questão
resolvida. Sempre a sorrir durante toda a conversa, ele deu-me um beijo e
continuou a sua viagem. Na realidade, em milhares de pessoas que ali se
encontravam, não se viu uma mulher com a cabeça destapada. Não sendo
obrigatório, acaba por ser uma forma de respeitar a cultura.
Entretanto hora de jantar. Para
nossa surpresa, uma barraquinha vendia Kunafa, um doce fabuloso que comemos
desalmadamente na Jordânia. É feito de uma massa fina, tipo aletria, misturado
com queijo e frutos secos. Claro está que tirámos a barriguinha de miséria. Foi
o nosso bolo-rei da ceia de Natal. Amanhã é sentido sul, com paragem algures a
meio caminho de Abha, porque até lá são 1000 km.
Mas o dia ainda não tinha
terminado e na realidade terminou da melhor forma. O diretor do hotel veio
meter conversa connosco, e acabou por nos convidar para ir visitar uma
mesquita, segundo ele, a mais importante e bonita de Medina, principalmente à
noite. Aceitámos e na realidade a mesquita – Quba - é lindíssima, sendo a
primeira mesquita construída do Islão. Existe desde 622, e foi construído pelo
profeta Maomé, quando imigrou de Meca para Medina.
Fomos beber um chá tradicional de
Medina a convite dele, uma mistura de hortelã e folhas de rosa, entre outras
ervas, bastante bom, e acabámos por ir ficando na conversa. A vida por aqui é
muito diferente, principalmente a nível económico. Ele ficou muito admirado
quando lhe dissemos os impostos que pagávamos. Aqui as pessoas não pagam nenhum
tipo de imposto, e a educação e saúde são totalmente gratuitas. Riu-se quando
lhe falei pagarmos portagens. O salário mensal mais baixo do reino são, ao
câmbio atual, 1.000 €, e o médio 2.500 €. Um professor ganha 3.500 € e um
médico pode facilmente chegar aos 25.000 €. Ele é diretor de hotel e tem um jipe
GMC, onde andámos, totalmente equipado para expedições no deserto, incluindo
cozinha. Tem um girocopter, um ultraleve, um buggy, 4 filhas… ficámos a saber
tudo isto porque, tal como eu, é um entusiasta de arqueologia e voa bastante
para descobrir construções antigas, mais visíveis do céu e faz grandes
expedições no deserto em busca de gravuras nas pedras. O reino, em termos
arqueológicos é um mundo por descobrir. Passámos um bom tempo a ver as suas fotos,
grande parte delas aéreas e lindíssimas. Ainda soubemos que o governo saudita
custeou a estadia dele um ano na Nova Zelândia, para aprender inglês. O
investimento no turismo está mesmo a ser muito forte. O caminho a percorrer
ainda é longo, e por aqui inglês é língua perfeitamente desconhecida, mesmo em
locais exclusivamente turísticos. Foi um final de noite em companhia excelente,
com uma conversa fantástica, e um amigo que fica. “Brothers”, como ele disse.
Ficou o convite para voltarmos e fazermos umas expedições em conjunto. Nunca se
sabe…
Arábia Saudita dia 4
25 dezembro 2023
Dia de Natal que começou
lindamente com um pequeno-almoço de pita de falafel, com tudo o que tínhamos
direito: falafel, ovo cozido, batata frita, maionese, couve roxa, beringela
grelhada. Uma explosão de sabores! Nem vos digo o preço… deve ter sido 0,50 €.
De volta à estrada, para mais uma
tirada de quase 500 km, entre Medina e Al Taif. No posto de combustível os
empregados desejam Merry Christmas. Pelo caminho, as famosas câmaras de
velocidade. Dezenas e dezenas. Inacreditável! É preciso conduzir com uma
atenção diabólica à sinalização. Não ter uma multa será só porque Jesus, Maomé,
Buda e mais alguns, se juntaram e decidiram poupar-nos.
Check point minucioso antes de
Meca, de acesso proibido a não muçulmanos. Carta de condução internacional,
passaporte, e telemóvel para ver o caminho que íamos seguir no GPS, que o
polícia percebeu estar ligado. Mas sempre super simpático! Até soube dizer
António. Terminou com um “welcome”. Hoje
calhou-nos duas paragens. A segunda muito mais rápida uma vez que o polícia
assim que percebeu que éramos de fora, apenas perguntou de onde éramos, e o
nome de Portugal aqui é logo sinal de largo sorriso, a que o CR7 não deve ser
alheio. Mandou avançar com um “welcome”, sem mais demoras!
Almoço de Natal num típico
restaurante saudita, com boxes familiares e onde se come no chão, e de uma
mesma travessa. Ser português, implica obrigatoriamente Ronaldo e isso leva de
imediato a oferta de um caril de vegetais para acompanhar o frango com arroz,
delicioso por sinal. Doses gigantescas, o que fez muito felizes dois gatos que lá
se safaram com partes mais secas do frango. Durante o almoço recebemos nos
telemóveis uma mensagem da proteção civil, mas escrita em árabe. Não
conseguimos tradutor para a mesma. Uns não falam árabe, e os que falam, não
falam inglês. Mas conseguimos minimamente perceber ser um alerta para dia 29 com
previsões de chuva forte, na zona de Medina e Meca. Nesse dia já estaremos a
milhas. O restaurante ficava mesmo no sopé de uma alta montanha, e no mapa a
estrada via-se bastante sinuosa, e estradas de curvas é comigo. Afinal era
bastante tranquila, porque até em alta montanha conseguiram fazer uma estrada
de duas faixas para cada lado. Tem uns ganchos excelentes, e a vista é mesmo
fabulosa.
Paragem em Al Taif, para descanso
da tripulação. Cidade de montanha, a 1.700 m de altitude. É conhecida pela
qualidade da sua água de rosas e pela produção de romãs e figos. O teleférico
estava fechado, mas a viagem deve ser impressionante em termos de paisagem. Aproveitámos
para conhecer o mercado antigo da cidade, onde ainda se faz certamente a maior
parte do comércio. Dezenas de lojas que vendem de tudo um pouco. Paragem para
um chá, que acabou por ser oferta de um cliente, que fez questão de oferecer. A
hospitalidade deste povo tem sido notável e é certamente algo de que não nos
vamos nunca esquecer. Amanhã serão mais 500 km de estrada.
Arábia Saudita dia 5
26 dezembro 2023
Hoje o percurso acabou por ser
dividido. São as vantagens de se viajar sem nada marcado, o que nos dá muita
liberdade de improviso. Em vez de 500, dividimos o percurso em 2 e acabámos por
ficar em Al Bahah, em plena montanha, a quase 2.000 metros de altitude.
Para o dia de hoje tínhamos uma
missão: trocar uma nota de 500 SAR, cortada num dos cantos e que por duas vezes
os comerciantes recusaram aceitar. Descobrir um banco no caminho não foi fácil,
mas quase a chegar ao destino, eis que surge finalmente a tão desejada
instituição. Para entrar…um filme! Um diligente segurança insistia em que
tínhamos de tirar uma senha e escrever o número de conta num monitor.
Inglês…népias! Até que por fim, uma troca de olhares com um funcionário numa
secretária fez-nos entrar. Explicámos, e em 1 minuto ficámos com o problema
resolvido. Missão cumprida!
E segue estrada para Dhee Ayn,
evitando os macacos que atravessam a via. Dhee Ayn é uma aldeia histórica
completamente reconstruída para fins turísticos, lindíssima por sinal, e numa cota
muito mais baixa que Al-Bahah. Na realidade é um fértil oásis, uma vez que
brota uma nascente de água, que dizem os mais velhos, pelo menos durante os
últimos mil anos nunca secou. A estrada que desce para o vale é fabulosa, e é
uma obra de engenharia complexa de túneis e viadutos a acompanhar a montanha.
Em meia hora de descida a temperatura subiu 15 graus. Desta vez, estrada apenas
de um sentido para cada lado. Camiões no percurso dificultam o andamento, uma
vez que é proibido ultrapassar nos 25 km de descida. Mas na Arábia Saudita,
fazemos como os sauditas. Nas pequenas retas, se dá para passar…passa-se! O meu
copiloto é que resmungou muito…
Almoço num restaurante local,
sentadinhos no chão, e outra vez frango! Muito frango se come neste país. À
saída, um grupo de homens, que animadamente comia à volta de uma travessa
gigante, mete conversa connosco. De onde somos, para onde vamos, de onde vimos,
se estamos a gostar, etc. Por fim, um deles questiona se precisamos de alguma
coisa que eles ajudam e terminam com um vigoroso “Welcome”! Esta hospitalidade
é algo a que não estamos habituados, e só a conseguimos compreender
vivenciando. Nesse campo a Arábia Saudita tem sido uma surpresa muito, mas
muito agradável, porque se nota que as pessoas querem mesmo que fiquemos com
boa impressão das gentes e do país.
Voltando à aldeia de Dhee Ayn, na
lista de candidatos a Património da Unesco, começámos pelo Centro de
visitantes, onde fomos muito bem recebidos por um jovem, que apenas arranhava
inglês deu-nos uma explicação do que podíamos ver no centro e na aldeia. A
visita é grátis. O centro, muito agradável, tem um minimuseu e a história da
aldeia que remonta ao tempo das caravanas, vindas do Iémen, que por aqui
passavam para descanso e reabastecimento. Perto da nascente de água, uma banca
de chá e de flores de um Bangla, onde já estavam dois Saudis, e lá partilhámos
mais umas histórias do local, ao sabor de um quente chá-verde com hortelã,
delicioso. Entretanto aparece o dono da banca, que gentilmente corta uma flor
de um vaso e oferece à Ana, dizendo “Welcome”! Mais uma vez a atenção destas
pessoas é fabulosa. Depois da visita regresso ao centro de visitantes, agora já
com 2 rececionistas. Muito atenciosos, questionaram se tínhamos gostado e qual
as melhoras que podíamos sugerir. Dei duas sugestões que eles acharam muito
interessantes, via tradutor do Google. Estava a ver que acabava contratado como
consultor. Acabámos a conversa no futebol, Cristiano Ronaldo e Jorge Jesus, este
último que me parece ir ficar aqui para a história, pelos bons resultados que
está a alcançar, e se eu era irmão do Rui Vitória, porque sou muito parecido.
Ainda nos deram 4 garrafas de água fresca, tirámos fotos, enfim, mais um
exemplo do cuidado e da atenção ao visitante. Não é fácil encontrar isto
noutros locais do mundo.
Tudo o que desce sobe, e Al-Bahah
fica mais alto que Dhee Ayn, logo a estrada tem de voltar a ser feita. Mais uns
resmungos do copiloto, mas felizmente só apanhámos dois camiões. Reserva do
hotel na cidade sem nenhum problema e novo filme com o rececionista, que de
inglês… nada! A sorte é que já sabemos os números em árabe. Desta vez até
tiveram de telefonar para alguém, para falar connosco. Felizmente o funcionário
da limpeza, indiano, lá arranhava qualquer coisa e tudo correu bem, com
contrato de alojamento assinado e tudo. Passeio pela cidade e amanhã mais 300 km
até Abha, numa viagem prevista de mais de 5 horas, maioritariamente em
montanha.
Arábia Saudita dia 6
27 dezembro 2023
Viagem de Al-Bahah para Abha. E
logo com uma surpresa. O caminho indicado pelo GPS, já é um velho conhecido.
Vamos ter de descer novamente para a aldeia de Dhee Ayn, numa fabulosa estrada
de montanha. O copiloto rezingou, mas felizmente só apanhámos um camião na
descida.
Para variar, dezenas de controlos
de velocidade. Aliás devem ter comprado todo o catálogo de dispositivos de
controlo de velocidade. Já vi umas caixas quadradas, umas retangulares, uns
tubos que se confundem com candeeiros, e a tradicional máquina montada num
tripé à beira da estrada, com alguma camuflagem. Outra praga são as lombas de
redução de velocidade. Existem milhares! Muitas com pouca visibilidade.
Espaçadamente vamos encontrado
grupos de macacos que atravessam a estrada a correr com sacos de plástico
roubados dos caixotes. Paragem para um chá, que se deve pedir sempre sem açúcar.
De outro modo é açúcar com um bocadinho de chá. Para levantar dinheiro os ATM
são nas bombas de gasolina, numa casinha à beira da estrada.
Finalmente hoje conseguimos algo
diferente para o almoço, do que frango. Borrego! Inglês no restaurante…nada!
Tive de ir à cozinha ver os petiscos. O Borrego foi servido com arroz que daria
certamente para mais 6 pessoas e estava uma pequena maravilha, capaz de
levantar mortos. Por mim ficava a estagiar nesta tasca, até aprender a receita.
Para hoje o ponto alto é a visita
à aldeia histórica de Rijal Alma, com uma arquitetura muito característica e de
influência iemenita. É candidata a
Património da Unesco. A aldeia era um importante centro comercial, nas ligações
entre o Iémen, Meca e Medina. Só uma parte está ainda recuperada e visitável. A
entrada tem um custo de 20 SAR, e inclui visita ao museu, que poderia ser muito
melhorado, o que espero que aconteça, dentro da Visão Saudita 2030. Durante a
visita cruzámo-nos com uns indianos, que adoraram sermos portugueses e houve
reportagem fotográfica e tudo. O senhor até nos queria pagar umas bebidas, mas
na realidade estávamos de saída e gentilmente recusámos.
A estrada de Rijal Alma para
Abha, é um verdadeiro suplício para os carros. A subida é algo de inacreditável,
quase a pique. Em poucos km sobe-se um desnível de 1.000 metros. Estrada
proibida a veículos pesados. Basicamente são uns km de ganchos ora para a
esquerda ora para a direita, com um grau de inclinação de muitos graus.
Imaginem a Copiloto… duas destas no mesmo dia!
Escolha de hotel e o filme do
costume. Inglês…nada! Telefonemas para trás e para a frente e a coisa lá se
resolveu. Saída para visitar a cidade, a 2.400 m de altitude, e acontece a
surpresa do dia. Descobrimos um bairro de casas de construção tradicional a ser
reconstruído, e deparámo-nos com uma casa já totalmente recuperada, construída
com madeira, lama e pedra. Vimos um portão aberto e fomos entrando. Numa mesa,
um senhor de idade e um jovem conversavam. Perguntámos se podíamos fotografar a
casa e fomos de imediato convidados a sentar com eles. Apareceram logo umas
garrafas de água. Afinal a casa era particular e este senhor é o dono.
Convidou-nos a visitar a mesma, sendo a casa onde nasceu. Trabalhou muitos anos
pelo mundo daí falar muito bem inglês. O seu pai era o chefe de uma tribo da
região, e todas as casas que se encontram à volta para recuperação eram dessa
tribo. Ele custeou a recuperação da sua e o governo está a tratar das
restantes. Fomos para a sala e de repente o jovem aparece com chá. Esta
hospitalidade é algo de fabuloso. E ali ficámos um bom bocado na conversa sobre
ele, a casa e o mundo. E a conversa apenas se interrompeu com o chamamento da
oração do pôr do sol, caso contrário era bem possível ainda lá estarmos. Amanhã
temos perna de 200 km para Jizan, mar vermelho. Vai acabar o fresquinho da
montanha.
Arábia Saudita dia 7
28 dezembro 2023
Hoje passámos dos 9 graus da
manhã, para os 36 da tarde. Saída de Abha, nas montanhas, para Jizan, Mar
Vermelho. Mas primeiro o pequeno-almoço. Um dos melhores, senão o melhor
falafel, que já comemos. Assim que entrámos, logo dois para provar, ainda
morninhos e estaladiços. Vamos nessa! Conversa de onde somos, e não sei porquê,
acham sempre que somos americanos, e assim que dizemos Portugal, mais dois de
oferta. Este povo tem mesmo prazer em receber bem forasteiros. Da parte da
manhã ainda fomos dar uma volta pela cidade, quando nos deparámos com uma casa
de construção tradicional – pedra, madeira e lama – mas de arquitetura
diferente das desta zona. Paragem para explorar e fotografar. Percebemos ser um
restaurante/museu, e deixaram-nos entrar para visitar. Durante a visita, um
senhor de bom ar dirigiu-se a nós, e num inglês muito bom, explica que é o
dono, questiona de onde somos, e conta a história da casa. É uma construção
típica da zona dele, que fica no deserto, entre Medina e Riad. Estava de saída,
mas ia deixar indicação ao staff, para podermos visitar o salão reservado, que
na realidade era lindíssimo. Mais um exemplo de bom acolhimento.
Início então dos 200 km que nos
separavam de Jizan. Os primeiros km são vertiginosos, numa descida de montanha vertiginosa.
Contudo, e aqui terei de alterar a minha opinião, conduz-se muito mal nas
estradas de via única sauditas. Os mais rápidos passam de qualquer forma e em
qualquer lugar. Hoje senti-me numa estrada da Índia, onde a regra de condução é
não haver regras. Por fim, lá chegámos a uma autoestrada e a situação fica
muito mais pacífica. A paisagem torna-se cada vez mais árida e monótona.
Planícies a perder de vista, apenas pintalgadas de complexos industriais,
pensamos nós serem de extração
petrolífera dadas as dimensões, e pequenos cones quase perfeitos de antigos
vulcões. Os camelos voltam a reaparecer, substituindo os muitos macacos das
montanhas. Hoje ao almoço decidimos variar. Foi frango, num restaurante de
paquistaneses, muito simpáticos, que nos deram umas dicas de cidades a visitar,
num país que está nos nossos projetos futuros.
Hoje a escolha do hotel em Jizan foi
fácil, uma vez que decidimos ser o dia do miminho da viagem. Piscina, ginásio,
spa, roupões, enfim, um sem número de mordomias. A piscina do hotel é só para
homens, mas a água é apenas gelada, podendo mesmo dizer incrivelmente gelada. Quem não pôde ir não perdeu nada.
Ainda tentámos ir ver como
funcionava o ferry para as ilhas Farasan, mas é muito difícil encontrar pessoas
que entendam o inglês. Conseguimos apurar que haveria um às 8H00, mas com
regresso só às 17H0O, mas sem muitas certezas. Com mais tempo arriscávamos, mas
para manter o plano, poderia hipotecar o resto da viagem e optámos por não ir.
Decidimos jantar no Mac já que
estava convenientemente localizado em frente ao hotel e estávamos com
curiosidade para experimentar os exclusivos do país. Lembro-me sempre do
Macflurry de jaca, que só descobrimos na Malásia, e que é absolutamente
delicioso. Aqui optámos pelo mais diferenciador que é o MacArabic Chicken –
outra vez frango – mas é a única proteína disponível no Mac de cá. Não vai
ficar para a história…
Um pouco mais à frente brilhavam
as luzes dos inúmeros parques de diversões, muitos deles temáticos, junto à
beira-mar, que acabámos por ir ver. No paredão, centenas de famílias fazem
piqueniques, em cima dos seus tapetes. Nos parques, os miúdos divertem-se e
vimos algumas curiosidades. Uma delas foi uma pista de areia para aluguer de
moto 4, e que se alugam a qualquer idade. Capacetes não há. Vimos miúdos com 6
ou 7 anos, a acelerar com força naquilo. É assim que nascem os Nasser
Al-Attiyah. Na feira de diversões, adquire-se um cartão recarregável, compra-se
créditos, e cada diversão tem um leitor eletrónico, com a indicação dos
créditos que vão ser consumidos. Além destes, ainda há o Dino Parque, O
Far-west, O Super Mário, entre outros. Uma multidão enchia tudo isto. No que
visitámos com mais tempo, vários locais abordaram-nos a perguntar de onde
erámos. Um adolescente até queria que fôssemos atirar setas com ele, já que
tinha o cartão carregado. Um grupo de miúdas questiona-nos se já provámos um
doce regional, feito com banana e mel. Numa zona de jardim mais à frente,
dezenas de famílias fazem piqueniques na relva, alugando um engenhoso sistema,
de armação metálica, que faz de encosto para as costas e traz almofadas e
tapete. Outras optam por ficar mesmo em frente ao mar, bebendo o seu chá e
comendo os seus doces.
Amanhã e depois duas estiradas
longas de 350 km cada uma, para finalizarmos com 2 dias em Jeddah. Não havendo
cidades de dimensão pelo caminho a próxima paragem vai ser mesmo surpresa.
Arábia Saudita dia 8
29 dezembro 2023
Depois do merecido descanso e de
um pequeno-almoço continental, primeira interação com um casal de sauditas no
elevador, que nos perguntam de onde somos. Têm nos seus planos ir à Madeira.
Parece que o Ronaldo vai atestar a ilha de sauditas, por já não ser o primeiro
que menciona a região.
Visita aos mangais de Jizan e
siga caminho para Jeddah, com paragem a definir pelo caminho. Hoje a cidade
está completamente deserta, porque é sexta-feira, dia de descanso. Nada a
assinalar até ao almoço, senão “comer” km, ao som de música tecno. O copiloto
foi tendo dia atarefado de escritório, a definir rota e local de paragem, que
antes do almoço ficou definido ser Al Qunfudhah.
Ao almoço, 2 filmes… empregados a
falar inglês…nada! Só havia borrego cozido e a Ana… nada! Após mais um episódio
de “o gesto é tudo”, e de se ter descoberto uma espécie de massa prensada e
assada, até que boa por sinal, lá se arranjou almoço para todos. O borrego
estava simplesmente divinal, e até a Ana concordou depois de provar, mas
dedicou-se quase em exclusivo à massa com arroz. De repente aparecem dois
miúdos que ficaram encantados com a minha máquina. Pediram fotos, para depois
fotografarem o visor da câmara com os seus telemóveis. Um deles, mais vivaço,
quis ser ele a fotografar, e até tinha postura de fotógrafo. Foi um daqueles
momentos inesquecíveis em viagem, quando com tão pouco conseguimos fazer duas
crianças tão felizes.
Mais umas horas a fazer estrada,
e 400 km depois, chegada ao destino de hoje, Al Qunfudhah, cidade portuária do
Mar Vermelho. Surpresa do dia: ao balcão, pagámos menos 100 SAR no hotel, do
que o valor da Booking. Temos utilizado este sistema de não reserva e temos
quase sempre tido ou o mesmo preço ou preço mais baixo.
Passeio pela corniche da cidade e
mais uma vez exemplo do bom acolhimento que este povo nos tem habituado. A
corniche já estava repleta de famílias, que nos seus tapetes, jantam, bebem chá
e café feitos no local e aproveitam o tempo mais fresco junto ao mar. Estava a
tirar uma contraluz já depois do por do sol à Ana e um saudita começou a falar
comigo e a apontar para a câmara. Percebi que também queria uma foto daquelas.
Ficou maravilhado com o resultado. Depois o filho também quis. Acabámos por
ficar uma meia hora a beber café, a comer doces e na conversa, com as histórias
de cada um. Ele, oficial do exército, falava algo de inglês, e entre português,
árabe, inglês e gestos, fartamo-nos de rir. Quatro filhos, sendo que a filha,
de 20 anos, estava noiva de um oficial do exército, que estava fora num curso
de especialização nos EUA. Quando voltar há casamento.
Desde Al Ula que não vimos
ocidentais, e tenho a sensação de termos andado por locais pouco ou nada
frequentados por turistas, porque os sauditas querem muito interagir connosco.
Do nada, quer na rua quer nas lojas, vêm ter connosco, questionam de onde somos
e terminam sempre com um ternurento “WELCOME”! A noite terminou junto a uma
loja apinhada de gente, que, ou foi inaugurada hoje, ou começou hoje os saldos.
Luzes, som, DJ, água grátis, e centenas de pessoas num frenesim de compras.
Amanhã última etapa da viagem, com destino final, antes de casa, Jeddah. Teremos
dois dias para explorar a imensa cidade.
Arábia Saudita dia 9
30 dezembro 2023
Último percurso de 400 km desta “road
trip” pelas arábias, com destino final Jeddah. No total e como previsto, foram
3.500 km por um país riquíssimo de cultura, lindas paisagens e de um povo super
acolhedor. Os próximos dois dias serão para explorar o muito que Jeddah tem
para oferecer em termos históricos. Localizada no Mar Vermelho, tem o maior
porto do reino. Tem 4.000.000 de habitantes, é a capital do comércio, e a
segunda cidade do país. Em construção, a Torre do Reino, que irá ser o maior
edifício do mundo.
Hoje visitámos o museu Al Taybat,
que em quatro pisos conta os 2.500 anos de história da cidade. Está num
edifício lindíssimo, que recria a arquitetura tradicional Hijazi da cidade
antiga, com janelas salientes sobrepostas com intrincadas treliças de madeira.
A visita por fora é imperdível.
Poderia ter sido um dia
perfeitamente normal, mas aqui as surpresas sucedem-se. Estávamos no terceiro
piso a apreciar as diferentes formas de construção tradicional das diferentes
zonas da Arábia Saudita, quando um grupo de senhoras me interpela e me questiona
se quero colaborar na realização de um vídeo, feito por alunas da escola
internacional, para concorrer a um projeto nacional. “Off course!”. As senhoras
eram professoras. Libanesas e uma jordana. As alunas, com idades entre os 11 e
12 anos, sauditas. Ao princípio as meninas estavam muito aflitas com a
realização dos vídeos, que basicamente consistiam em cada uma delas apresentar-me
uma região da Arábia Saudita. Claro está que passados uns minutos já estava na
galhofa com elas e correu lindamente. Em dois takes os vídeos ficavam
prontinhos. Depois pediram à Ana para fazer também dois vídeos com duas alunas,
dentro da mesma sequência. Foi um final de tarde excelentemente bem-passado, o
de podermos colaborar num projeto certamente ganhador. A frase final, em
português e a pedido foi “Espero que ganhem!”. Depois disto podemos estar a um
passo da Netflix! Também soubemos por uma das professoras, fã do Cristiano, que
o Al Nassr ia jogar hoje em Jeddah. Já não havia tempo útil para ir ver, mas
tinha sido mais uma experiência a recordar. Amanhã o dia será passado em
Al-Balad, bairro histórico da cidade.
Arábia Saudita dia 10
31 dezembro 2023
Dia inteiramente dedicado à
gigante cidade de Jeddah. Hoje perdemo-nos pelo bairro antigo de Al-Balad, centro
histórico da cidade, que de momento é um gigantesco estaleiro. Pelo que percebemos,
o bairro neste momento é propriedade do governo e está a ser totalmente
recuperado. Edifícios lindíssimos, com janelas e varandins de madeira
trabalhada. Assim que chegámos, fomos interpelados por um professor de guias
turísticos, que acompanhava um grupo de alunos em aulas práticas. Necessitavam
de alguém para os alunos interagirem, e como é óbvio, colaborámos ativamente no
exercício, que consistia em contar a história de um edifício. Mais à frente, um
grupo de crianças oferecia comida tradicional saudita. Pelo nível de inglês
seriam certamente alunas de uma escola internacional. Aos poucos as lojas foram
abrindo, e o bairro ganhou vida, apenas interrompida pela oração do meio-dia. Os
comerciantes aliciam-nos a entrar nos seus estabelecimentos, mas para quem
viaja de mochila, as compras são para passar ao lado. Abrimos apenas três
exceções que foram dois lenços palestiniano, um íman e limões negros,
especiaria que nunca consegui encontrar em Portugal, e que dá um sabor
fantástico a assados. O lenço foi uma novela mexicana. Um simpático iemenita,
bem tentou arranjar o lenço, mas sempre que ia a algum lado buscar, a coisa
corria mal. Os lenços árabes têm padrões por povos, tribos, etc. O senhor
trazia sempre um que apenas dois dos três padrões batiam certos. Mas ele
insistia “same, same!” Depois de 4 ou 5 tentativas finalmente acerta no padrão
palestiniano, só que…os lenços tinham mais defeitos do que coisas boas.
Lamentavelmente não conseguimos fazer negócio. Já em fase de desistência do
lenço, entramos numa última loja. Um simpático empregado atende-nos, que
soubemos depois ser iemenita, e em 30 segundos temos lenço! Mais rápido era
impossível. Quando lhe dissemos que éramos de Portugal fez uma festa incrível e
ainda tivemos um desconto nos lenços. Num dos edifícios que fotografamos,
alguém nos pergunta se gostamos da casa. Claro que sim! Estava uma recuperação
impecável. Quem nos questionou foi o engenheiro egípcio responsável pela obra.
Assim que falámos de Portugal, neste caso foi a vez de surgir o Manuel José,
que durante anos treinou uma equipa egípcia. Acabámos em abraços e fotos, e até
um polícia se juntou à festa. A compra dos limões também não foi fácil. Dificuldades
de comunicação terríveis, a máquina que não trabalhou para reduzir os limões em
pó, mas finalmente lá conseguimos fazer a transação. Pelo caminho as lojas de
perfumes são as que mais nos convidam a entrar. Na realidade, os perfumes
parecem mais um óleo, mas de uma eficácia brutal. Apenas uma gota no braço, e
várias horas depois, o aroma mantém-se. Mas o espaço e peso terminaram, pelo
que fica para uma próxima. No meio de tudo isto, ainda fomos fotografados com
um miúdo com uma camisola do Ronaldo, a pedido do pai.
Uber para o hotel, uma vez que
foi a opção de hoje para deslocações na cidade e não é nada caro. Saída noturna
para jantar na Midle Corniche, de onde se pode ver a fonte que jorra água a
mais de 300 metros de altura. Celebrações de Novo Ano por aqui não existem.
Amanhã último dia pelo reino.
Arábia Saudita dia 11
1 janeiro 2024
Último dia, com pena nossa.
Depois do check-out, o dia estava perfeito para explorarmos mais um pouco desta
cidade, tendo a escolha recaído sobre toda a zona junto ao Mar Vermelho, também
conhecida por Corniche. Local com muito pouco trânsito e de muito fácil
estacionamento. Junto ao mar, muitos edifícios altos, uns já construídos outros
em construção. Jeddah não é exceção, e por aqui as obras sucedem-se. O país
inteiro é um estaleiro gigantesco, com os olhos colocados em 2030, na sua
SaudiVision2030, em que se esperam 30 milhões de visitantes por ano.
Aconselhamos fortemente a quem pensa visitar este destino que o faça
rapidamente. Voltando à Corniche, são muitos e muitos km de frente de mar,
totalmente remodelada, com lindos jardins, miradouros, pontos de descanso,
wc’s, parques infantis, restaurantes, cafés, food trucks e praias, infelizmente
fechadas porque é “inverno”. Estariam entre 25 e 28 graus, o que por estas
zonas é “fresco”. Muitos locais usam casacos e coletes, e até vimos um senhor
de cachecol. O mar tem uma cor turquesa e uma transparência fenomenal, e um
mergulho seria uma delícia.
Mesquitas vão aparecendo pelo
caminho, e um pouquinho mais para o interior, uma ciclovia toda colorida, faz
as delícias dos instagramers. Hora de almoço e a escolha recaiu sobre o Red Sea
Mall, até para refrescar um bocadinho, que o dia estava quente, pelo menos para
nós.
Visita à ponta norte da Corniche,
com visita à Mesquita Flutuante. É aqui também que existe o circuito de F1, mas
que não foi possível de visitar, apesar das tentativas realizadas. Mesmo ao
lado a fun zone do mundial de clubes que decorreu recentemente em Jeddah. A
aposta em eventos desportivos é notória, na promoção do país como destino
turístico. A zona escolhida para o pôr do sol, 22 km mais a sul, foi a do
grande geiser, onde já tínhamos estado na noite anterior. E aconteceu o ponto
estúpido da viagem. Os seguranças vieram implicar comigo por ter uma máquina
fotográfica. Posso fotografar para o lado de terra, mas não é permitido
fotografar para o lado do mar. Parto do princípio que será para não se
fotografar o geiser, sendo que com telemóveis não há problema. Enfim… é tapar o
sol com a peneira. Infelizmente acontece muito esta aversão a máquinas
fotográficas e objetivas profissionais, quando atualmente todos temos uma no
bolso. E os seguranças nunca mais me largaram até nos irmos embora. Um deles
até me pediu para ir guardar a câmara no carro. Foi pena termos fechado com
esta nota negativa e sem sentido.
Jantar, lavagem do carro e
aeroporto. Nota para quem quiser alugar carro: a maioria das companhias de
aluguer limitam os km no aluguer, e os km extra são cobrados. E 3.500 km
depois, a nossa viagem terminou.
Em resumo, foi uma viagem
interessantíssima, onde conhecemos um povo fabuloso, muito atencioso com quem
os visita, cumprindo as tradições árabes de bem receber os viajantes. Em termos
de segurança… creio que podíamos ter deixado o carro aberto e que nada
aconteceria. Todas as partes históricas do país estão a ser recuperadas, e as
estradas de montanha são imperdíveis de se fazer. Paisagens lindas, quer de
deserto, quer de montanha. Preços bons de alojamento nesta época baixa e preços
muito atrativos de alimentação, se se recorrer a restaurantes para locais, que
têm comida deliciosa. Se não gostarem de frango, não vão à Arábia Saudita.
Ainda muito ficou por visitar. 3.500 km deu para ver uma pequena parte do país,
que é grandioso. Teremos de ter Arábia Saudita 2.0, num futuro próximo. A ver
se conseguimos na próxima ver uma etapa do Dakar. Este ano as datas foram
alteradas e o rally não começou no dia 31 de dezembro, e sim uma semana mais
tarde. Mais uma vez viajámos sem nada marcado, e isso dá-nos uma liberdade de
movimentos enorme, com uma otimização muito grande de tempo, consoante os
interesses que nos vão surgindo localmente. Caso ainda tenham alguma dúvida no
destino, não hesitem e vão! Não se irão arrepender!
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