Viagem ao Nepal e Butão, em
abril de 2011
Dia 1 e 2
Começou bem cedo este dia, com o
primeiro voo, Lisboa-Milão, a sair às 8 da manhã. O avião saiu com um pequeno
atraso, visto que tivemos de aguardar pelo primeiro-ministro, José Sócrates,
que, como seria de esperar, viajou em executiva. Duas horas e dez minutos depois,
aterragem no Aeroporto Malpensa, e pouco tempo depois, novo voo, desta vez com
destino ao Qatar. Chegada já noturna, depois de uma viagem de 6 horas. Mangas
de desembarque não existem, e a nossa porta de saída deverá ser a da cor que
consta no nosso talão de embarque, um sistema ainda algo “artesanal”. Quase
todos os funcionários de terra com que nos cruzamos, são de origens ou russa,
ou asiática. De uma escala curta, passámos a uma escala média, com um atraso de
duas horas no voo final que nos levará até Kathmandu. Por sorte, um pequeno
café ainda servia batatas fritas e chamuças vegetarianas, que salvaram o
jantar. O tabaco é muito barato. Um volume de Marlboro custa 12,50 €, ou seja,
1,25 € o maço, enquanto em Portugal já nos cobram 4 €. Mas, preço bom,
condições péssimas. As “smoking areas” são pestilentas, com um nevoeiro de fumo
persistente, mas, quando se é fumador, aguenta-se tudo. Sentimo-nos numa fogueira
abastecida a lenha verde, tal não era a “fumarada” por que passámos. Até foi estranho
gastarmos cigarros. Estar apenas lá dentro, já nos “intoxicava” o suficiente.
Voo noturno, que deu para dormitar,
e aterragem de manhã em Kathmandu. Os vistos de entrada no país são tratados à
chegada, e o sistema é confuso e demorado, parecendo um “rally paper”. Uma hora
de fila e passagem por 5 funcionários. O primeiro controla e olha-nos de cima a
baixo; o segundo escreve o nosso nome e número de passaporte, num bloco de 3
vias, daqueles antigos, ainda com as folhas azuis de químicos, e recebe 25 USD,
custo do visto de entrada, e entrega-nos duas vias do “documento” e uma folha
autocolante com o nosso visto; o terceiro pega no visto, no nosso passaporte e
nos dois duplicados, confere e fica com uma das vias; o quarto pega no
passaporte e cola o visto de entrada, que dá de imediato ao quinto, que olha
para nós com ar de mau e assina o visto. Um sexto, ainda circulava na confusão
da sala e da fila a agrafar as fotos do pedido de visto. Finalmente,
conseguimos entrar no país! NAMASTE!
Alojamento no Hotel Annapurna,
localizado no coração da cidade. Primeiro hotel de 5 estrelas a ser
estabelecido no país, e o seu nome foi uma homenagem à Deusa Annapurna, a Deusa
da abundância. Mais tarde percebemos como tínhamos conseguido um hotel de 5
estrelas por um preço ótimo. Estava com muitas obras e o seu ex-libris, a maior
piscina da cidade, estava desativada e a ser restaurada. Calorosa receção pelo
trintanário do hotel, que como lhe apertei a mão à chegada, fazia questão de vir-me
sempre cumprimentar cada vez que nos cruzámos, não sem antes fazer-me
continência, sempre correspondida. Para quem desconhece, o trintanário, é o
funcionário do hotel, que nos costuma receber, elegantemente uniformizado e
normalmente com uma cartola e luvas brancas. O deste hotel até uma espada à
cintura tinha.
Como a passagem porta cidade é
curta, foi mesmo deixar as malas no quarto e sair para nos perdermos pelas ruas.
Kathmandu é a capital do Nepal, país cortado pela cordilheira dos Himalaias, e
onde se encontra o mundialmente famoso Monte Everest, o ponto mais alto da
Terra, com 8.840 metros de altitude. Foi neste país onde nasceu Buda, em
Lumbini, na região sul, mas a nossa passagem pelo Nepal vai ser muito restrita
a Kathmandu, sendo que o objetivo principal é o Butão. Numa outra oportunidade,
regressaremos com certeza, para explorar o restante território nepalês, riquíssimo
em cultura e beleza natural. Só para se ter uma ideia, existem no Nepal mais de
120 idiomas e dialetos. Um pequeno país entre dois gigantes, a Índia e a China,
mas com uma alma enorme.
A cidade de Kathmandu, tem uma
história fascinante, de milhares de anos, tendo sido ao longo dos séculos um
importante centro cultural, político e religioso. Segundo a mitologia local, o
vale onde a cidade existe seria um lago. O Deus Manjushri, cortou uma passagem
nas montanhas circundantes, com a sua espada, e abriu uma passagem para drenar
a água, tornando assim o vale habitável.
O país resulta da unificação de 3
antigos reinos, e depois de uma história conturbada, com a Guerra
Anglo-Nepalesa em 1814-16, seguida de uma ditadura que durou até 1951, e uma
guerra civil entre 1996 e 2006, finalmente encontra, em 2008, a sua
estabilidade política e social, com a constituição de uma República Federal
Democrática.
Voltando à cidade, ela é
completamente caótica, mas de uma beleza singular. Velhos automóveis e
motorizadas apitam frenética e desalmadamente em todas as ruas. Os ciclistas carregam
na orelha das campainhas de velhas “pasteleiras”, fazendo o barulho possível. Nenhum
veículo se detém em passadeiras ou semáforos. Andarem fora de mão também é algo
absolutamente normal. As ruas são atravessadas por quilómetros e quilómetros de
cabos, pendurados nos locais mais estranhos e sem algum tipo de lógica ou plano.
Finalmente chegámos ao bairro Thamel, mesmo no coração da cidade, e talvez um
dos bairros mais movimentados. Aqui amontoam-se placas e mais placas
publicitárias de albergues, hotéis, cafés, restaurantes, agências de
“trekking”, lojas de equipamento de caminhada, entre muitas outras coisas. Para
além de todo o movimento de centenas ou mesmo milhares de lojas e clientes,
abundam nas ruas vendedores de legumes e de especiarias e de transportadores de
mercadorias, muitas vezes às costas, apenas com um apoio da carga na sua testa.
Caótico, mas muito interessante de se observar, e conseguimos ver, como o caos
também tem organização.
Logo na entrada do bairro, um
local com um riquexó, veio propor uma viagem pelas redondezas, no seu veículo.
Era um bocadinho insistente, ou mesmo muito, mas também muito simpático o que
nos levou a contratar uma hora de passeio pelo bairro, neste típico transporte
local. Quinhentas rúpias, ou seja, 5 €, mas não é mesmo a nossa onda, este tipo
de atividade. É muito mais interessante andar a pé, interagir com os locais e
parar nas lojas e nos pequenos cafés, sendo o que fizemos imediatamente a
seguir ao “tour”. As lojas de equipamento de montanha são fabulosas, apesar de
serem “north fake”, mas de uma qualidade até bastante boa. Provavelmente
material desviado das fábricas que produzem para as multinacionais. Ainda
comprámos casacos, mochilas e botas de montanha, a preços fabulosos depois de,
claro está, muita negociação.
Dia 3
O dia começou cedo, porque havia
muito para visitar.
Começamos por Patan, uma das 3
cidades reais do vale de Kathmandu. Fica mesmo junto à cidade de Kathmandu,
separadas apenas por um rio. Patan tem uma história riquíssima e uma
arquitetura Newar muito bem preservada. O nome Newar vem do povo com o mesmo
nome, grupo étnico nativo do Nepal, e que durante séculos foi o povo
responsável pela construção dos principais templos e palácios da região. A
cidade de Patan é o centro cultural e artístico do país, com muitos templos
hindus e budistas, palácios e esculturas. Paga-se para entrar, algo como 5 €.
Visita a Patan Durbar Square, centro histórico e Património Mundial da Unesco.
Visita a vários templos, de onde destacamos o Templo de Krishna Mandir,
construído em pedra, o que é pouco comum, e o Golden Temple, mosteiro decorado
com ouro e bronze.
Sendo sábado, dia de descanso e
único dia livre, mesmo na escola, os templos estavam cheios e vivenciámos, com
os locais, a espiritualidade reinante nesta cidade. Muitos artesãos locais,
aproveitando o dia de descanso da população, vendem todo o tipo de arte, e não
resistimos a umas bolsas e pulseiras, muito étnicas e de design muito
interessante.
Num talho local, muito diferente
daquilo a que estamos habituados, um talhante cortava com esforço uma cabeça de
búfalo.
Continuando numa onda de
espiritualidade, saímos de Patan e fomos visitar Pashupatinath, local sagrado e
muito intenso, onde acontecem as cerimónias de cremação. Pashupatinath é um
templo hindu dedicado a Shiva, sendo o mais sagrado do Nepal, e local de
peregrinação de eleição. Fica nas margens do rio Bagmati.
Neste templo fazem-se cremações públicas
nas plataformas ao lado do rio. Tivemos oportunidade de assistir à parte final
deste ritual, impactante para nós, mas de um interesse cultural surpreendente e
riquíssimo, que por incrível que possa parecer, nos transporta para outra
dimensão espiritual, difícil de explicar.
Em conversa com um local, foi-nos
explicado todo o processo. Após a morte, o corpo é lavado e purificado com água
do rio, considerado sagrado. Aos homens são vestidas roupas novas de cor branca
e às mulheres de cor vermelha. O corpo é transportado numa estrutura de
madeira, decorada com flores - e foi a partir daqui que assistimos - até à pira
funerária, composta de 250 quilos de madeira de sândalo. Nesta deslocação, os
familiares entoam mantras e cânticos. Normalmente é o filho mais velho que
coloca o corpo na pira, com a cabeça voltada para norte. O corpo é envolto em
flores e arroz. O arroz tem vários significados na cerimónia de cremação.
Alimenta a alma na sua jornada para o além, purifica a alma e simboliza o ciclo
da vida e da natureza, que será o nascimento, morte e renascimento. Muitas
famílias colocam ouro ou uma moeda na boca do falecido, para a alma poder pagar
a sua jornada após a morte. O corpo é coberto com palha e o parente mais
próximo acende a pira, que arde durante três horas.
Depois da cremação as cinzas são
atiradas ao rio. Reparámos que muitos miúdos mergulham no rio, e explicaram-nos
que são crianças muito pobres, que tentam apanhar possíveis moedas que os
falecidos levem na boca. O simpático “explicador” que foi falando connosco ao
longo do ritual, também nos explicou que no país todos os hindus são cremados,
independentemente do motivo da morte. Na Índia já tal não acontece. Se, por
exemplo, a morte ocorrer por picada de serpente, o corpo é considerado impuro e
é simplesmente atirado ao rio.
O luto dura 13 dias, os homens
vestem-se apenas de vestes brancas, e afastam-se de eventos sociais.
Neste templo também podem ser
acolhidas pessoas que se preveja falecerem em breve, para assim poderem viver
os seus últimos dias num ambiente espiritual, e terem uma jornada tranquila
após a morte.
No local encontrámos muitos
Sadhus, ou homens santos, que se cobrem de cinzas e pintam o rosto, com cores
coloridas. Poucos vivem verdadeiramente como Sadhus, e a esmagadora maioria são
profissionais das gorjetas, em troca de fotografias.
A próxima paragem foi na
Boudhanath Stupa, um dos lugares mais sagrados do país, e um dos maiores e mais
importantes monumentos budistas do mundo, especialmente para os budistas
tibetanos. A esmagadora maioria dos presentes envergava trajes típicos do Tibete.
Soubemos serem exilados fugidos da repressão chinesa.
As stupas são uma construção em
forma de domo, que representam o caminho para a iluminação. Contêm relíquias
sagradas e orações, e são consideradas um vórtice espiritual. Esta é Património
Mundial da Unesco, desde 1979, e tem cinco vertentes com significado
espiritual: representa o universo budista em equilíbrio; os 2 olhos enormes são
o olhar de Buda e a sua sabedoria compassiva; o número 1 entre os olhos é a
unidade da consciência; o seu formato representa os cinco elementos, a terra, a
água, o fogo, o ar e o vazio ou éter.
Enquanto ali estivemos,
vivenciámos uma experiência profundamente serena e relaxante. Tal como os
locais, caminhámos em redor da stupa, sempre na direção dos ponteiros do
relógio, e girámos as rodas de oração, fazendo a “kora”. O som dos mantras
tibetanos, murmurados em voz baixa, pelos fiéis, torna o ambiente quase mágico.
Uma experiência libertadora e enriquecedora, que dificilmente se esquece.
Hora de almoço, e a escolha
recaiu no Buddha Kitchen, um restaurante com primeiro andar, onde ficámos, com
uma vista privilegiada para a Boudhanath Stupa. Com sorte conseguimos mesa à
janela, e pudemos observar os rituais que os fiéis praticavam em redor da
stupa. No restaurante serviram-nos umas iguarias locais e aproveitámos para
experimentar a cerveja nepalesa, que vos garanto ser deliciosa. A não perder a
cerveja Everest, servida em garrafas de 630 ml.
Depois do almoço, rumo para a
zona de Durban Square, onde nos perdemos no confuso comércio de rua, mas de
motivos fotográficos deliciosos. Eis quando uma senhora, que vendia legumes na
rua, se dirige a nós com a filha ao colo, e com um sorriso inesquecível, começa
a falar connosco. Sem entendermos o que pretendia, com a ajuda de outro
comerciante, que arranhava umas palavras de inglês, percebemos querer que a
fotografássemos com a filha. Só conseguimos mostrar o resultado no ecrã da
máquina, mas queríamos mesmo entregar as fotos em papel, o que iria fazer a
senhora imensamente feliz. Infelizmente não conseguimos comunicar para pedir o
endereço, e ainda percorremos várias ruas a tentar descobrir uma loja que
pudesse imprimir fotos, mas sem sucesso. Foi um momento de frustração, tristeza
e impotência. Se algum dia voltarmos a Kathmandu, levaremos estas fotos
impressas, e tentaremos entregá-las ao destinatário. Nunca se sabe.
Dia 4
Hoje o dia ainda começou mais
cedo, porque partimos para o Butão. Pedimos pequeno-almoço antecipado no hotel,
mas ao contrário do que era usual, este foi péssimo. A “lunch bag” era muito
estranha.
Se entrar no Nepal foi complicado
e demorado, sair não é mais fácil. Logo à entrada do aeroporto há uma revista
corporal que confisca os isqueiros. Foi o meu caso. A seguir raio-x às malas.
Segue-se preenchimento de papelada, novo controlo e mais uma revista. À Ana
ainda foram revistar a mochila e ficámos sem o segundo isqueiro. Finalmente
conseguimos chegar à sala de embarque. Mas com surpresa, antes do embarque e a
caminho do avião, nova revista. Começa a ser paranoia!
Finalmente entramos no avião da
Drukair, a companhia aérea nacional do Butão, e que com a Butan Airlines são as
únicas a voar para o país, dada a dificuldade da aterragem, que já falaremos
mais adiante. Se fizerem este voo, tentem ficar do lado esquerdo, porque têm
uma paisagem maravilhosa, que vos acompanhará durante toda a viagem, curta, de
apenas uma hora. Infelizmente não conseguimos esses lugares, mas deu para
espreitar ocasionalmente. O comandante fez questão de avisar a passagem pelo
Everest, completamente visível, e mesmo ali ao nosso lado, dada a sua altura.
Mas a parte mais emocionante da viagem, estava para acontecer e é a aterragem,
que vos posso dizer desde já, que é verdadeiramente espetacular, pelo menos
para quem gosta de voar! É certamente uma das aterragens mais emocionantes,
desafiadoras e espetaculares do mundo. O Aeroporto de Paro é considerado um dos
mais difíceis do planeta. Está a 2.200 metros de altitude, cercado de picos com
mais de 5.000 metros. Apenas 20 pilotos estão certificados para aqui aterrar.
Para ajudar, apenas se pode aterrar visualmente, não há ajuda ILS (Instrument
Landing System), ou seja, aterragem por instrumentos, sendo que tudo terá de
vir da habilidade e precisão dos pilotos. A aterragem é feita em modo manual,
entre montanhas, com uma descida em ziguezague, acompanhando um rio, até ao
momento final de alinhar o avião com a pista. Mesmo no final, as curvas que o
avião faz são bastante acentuadas, e quase que temos a sensação de que as asas
vão tocar na montanha ao nosso lado. Com frequência há cancelamentos de voos,
que são obrigatoriamente apenas diurnos. Depois desta aventura toda, aterragem
em Paro em toda a segurança, num dia de sol e com uma agradável temperatura de
19 graus. Não esquecer que estamos a 2.200 metros de altitude, e que será a
menor altitude a que vamos estar nesta viagem de descoberta do Butão.
Formalidades de entrada, não tão
complicadas como no Nepal, mas mesmo assim com algumas particularidades. O
visto para o país foi bastante complicado de obter, dado que o país tem limites
anuais de entradas. O nosso demorou quase 6 meses a ser confirmado, e teve de
ser solicitado por intermédio de uma agência portuguesa, neste caso a 4X4. Já
falaremos sobre o sistema de turismo no país. Por agora estamos na entrada. O
visto foi emitido para os dois num único documento, mas um “chefão” local,
entendeu que não poderíamos fazer a entrada em simultâneo. Eu para um balcão e
a Ana para outro. Fica uma fila parada à espera que a Ana entrasse, para me
passar o documento, e o agente verificar o meu visto. Mas as particularidades
não ficaram por aqui. Bens a declarar foi o próximo posto. No avião preenchemos
um documento em que uma das linhas seria identificar a quantidade de cigarros
transportados. Declaramos cada um de nós um volume de tabaco. Taxa alfandegária
de 30 USD por volume… cada um tinha custado 10 USD no Nepal. Pagámos por um e o
outro ficou à guarda da alfândega, que poderemos resgatar à saída do país. Um
recibo bastante descritivo, com toda a nossa identificação, marca do tabaco,
quantidade, etc.
À nossa espera um guia e um
motorista, com um veículo 4x4, ambos trajados com os fatos tradicionais do
país, que já falaremos. É a única forma de viajar pelo país, sempre
acompanhados com guias locais e agências autorizadas. O Butão tem um sistema de
turismo único no mundo. No ano em que fomos, apenas 20.000 vistos podiam ser
emitidos. A aposta é na qualidade e não em turismo massificado. Além disso, há
lugar ao pagamento de uma taxa diária e por pessoa, de Desenvolvimento
Sustentado (SDF) no montante de 250 USD. O Estado providencia transporte, guia,
motorista, alojamento e 3 refeições diárias. Esta taxa é totalmente aplicada em
projetos internos ligados à saúde e educação. Também o itinerário está
definido, sem ser possível alterá-lo.
Voltando ao nosso guia e
motorista, ambos muito simpáticos e prestáveis, e sendo proibido aos
estrangeiros fumar em público, sim, porque aos locais está totalmente vedado o
acesso a tabaco, não havendo nenhum local no país que o venda. Fumar publicamente
para os locais, dá direito mesmo a detenção. Segundo nos disseram os guias,
havia já cerca de 300 pessoas presas no país por serem apanhadas a fumar. Aos
estrangeiros vistos a fumar em locais públicos há lugar a pesadas multas. Mas
como a vontade aperta, a única forma de fumar foi no carro, conforme as
instruções dos guias. Se bem se recordam, os isqueiros foram-nos retirados na
saída do Nepal. Depois de muitas tentativas, lá conseguimos que o isqueiro do
carro funcionasse, e deve ter sido a primeira vez que foi utilizado, dada a
teimosia em não querer ligar.
Alojamento no hotel Phuntsho
Pelri, em Thimphu, capital do país, e para fumar, apenas no quarto e não na
varanda ou à janela. Com muita sorte conseguiram-nos uma caixa de fósforos. O
primeiro almoço foi no hotel, e uma deceção, pelo menos para mim. O Butão é o
país da malagueta. É quase como se fosse um legume e não condimento. Está
presente em toda a culinária, e faz parte de toda uma identidade cultural. Contudo,
nos hotéis, esse ingrediente foi retirado da comida servida aos turistas.
Felizmente havia uma salada de malaguetas com queijo de iaque, que satisfez a
minha paixão por picante. Durante toda a viagem se vêm malaguetas secando ao
sol, porque o consumo é mesmo elevado.
De tarde, sempre com os nossos
guias, fomos visitar o Palácio de Thimphu, um dos grandes símbolos do país. É a
sede do governo, mosteiro budista e residência oficial do rei durante o verão.
Foi construído no século XVII, tendo sofrido bastantes alterações devido a
danos provocados por terramotos. É um dos exemplos da extraordinária
arquitetura tradicional butanesa, que não utiliza pregos ou cimento. É aqui
também que acontece o famoso festival Thimphu Tsechu, em setembro, em que os
pátios exteriores e interiores enchem-se de máscaras e danças sagradas. À
entrada as mochilas têm de ser passadas pelo raio-x, porque tabaco não pode
entrar. Fica na receção e é devolvido à saída.
Fomos também ao mercado de
frutas, legumes, peixe e carne secos, um dos produtos muito utilizados aqui,
sendo a forma de conservar alimentos, dados os invernos rigorosos desta região
e certamente o seu isolamento pela neve. Volta pela cidade, que não tem uma
ponta de trânsito, nem semáforos. Apenas num cruzamento se encontra um polícia
sinaleiro, que em complicadas coreografias, controla os poucos veículos que
passam. As crianças adoram que lhes tiremos fotos, para depois verem no ecrã da
máquina e com uma coisa tão simples, passa-se uma tarde fabulosa. De mencionar
outra situação curiosa. Aqui a escola desde o primeiro ano é lecionada em
inglês, pelo que as crianças falam a língua de um modo quase perfeito. Tudo
isto a pensar no futuro do país e facilitar aos adolescentes irem fazer o
ensino superior no estrangeiro.
Depois do jantar, também no hotel
e num horário bem cedo, saímos para dar uma volta pela cidade, sempre com os
nossos guias. Fomos a ruas mais secundárias, e vimos uma realidade mais local.
As lojas são espaços minúsculos, muitas vezes de apenas 2 ou 3 metros
quadrados. O cinema, de tão pequeno, conseguíamos ver o ecrã do passeio. O
talho vende também peixe fresco, muito arrumadinho na mesma bancada dos
frangos. Os barbeiros dão verdadeiras tareias aos clientes, depois dos cortes,
com massagens de chapada na cabeça e nos ombros. Mas parece ser relaxante, pela
postura da clientela. As ruas têm dezenas e dezenas de cães. Sendo um país
budista, não se maltratam animais. Além disso, os butaneses acreditam que os
cães podem ser reencarnações de monges, pelo que maltratar um cão pode trazer
um karma negativo. Mas são totalmente pacíficos, e só se vão aborrecendo ocasionalmente
entre eles.
De regresso ao hotel, e falando
da realidade local do país com os nossos guias, aprofundámos o tema do
vestuário. A esmagadora maioria das pessoas, veste-se de uma forma tradicional.
Segundo nos transmitiram, é quase que uma obrigatoriedade governamental, para
assim se valorizar a cultura e a identidade nacional do país. Os homens usam o
“GHO”, que é um fato muito semelhante a um roupão, até ao joelho, preso com um
cinto na cintura, meias longas até ao joelho e sapatos de couro. Ainda têm um
lenço enrolado ao redor do tronco a terminar no ombro esquerdo. O lenço para a
maioria dos homens é branco, o amarelo só pode ser usado pela família real, e o
laranja por altos funcionários do Estado. As senhoras usam a “KIRA”, que é uma
peça de tecido enrolada ao redor do corpo, até aos tornozelos, fixada nos
ombros com alfinetes de prata. Têm ainda uma blusa de manga comprida e um
casaco curto. Também podem usar um lenço, muito mais curto do que o dos homens,
também no ombro esquerdo.
Desta conversa surgiu também a
questão do Índice de Felicidade Bruta, um dos indicadores mais importantes do
país. O rei entende que o desenvolvimento do país não deve apenas ser medido
pela riqueza material, mas também pelo bem-estar espiritual e social da sua
população. Desde 2008 que é considerado o indicador oficial de progresso. Um
exemplo a seguir pelo Mundo.
Dia 5
O dia começou bem cedo, e ainda
em Thimpu, fomos visitar a stupa, também chamada Memorial Chorten, um dos
marcos religiosos mais emblemáticos do país. Foi construída em 1974, no estilo
tibetano, em memória do terceiro rei do Butão, Jigme Dorji Wangchuck, falecido
em 1972. Há lugar ao pagamento de uma taxa de visita, e dentro do edifício do
templo não são permitidas fotografias.
Depois da visita, esperava-nos
uma “longa viagem” até Punakha, de apenas 70 quilómetros, mas que com os
milhares de curvas, numa verdadeira estrada de montanha, demoram 3 horas a
percorrer. Na viagem, paragem obrigatória em Dochula Pass, a 3.100 metros de
altitude. Aqui, 108 stupas foram construídas em memória aos soldados butaneses
que pereceram em confrontos com insurgentes indianos em 2003. São conhecidas
por Druk Wangyal Chortens. Muito perto, um templo erguido em 2008, o Druk
Wangyal Lhakhang, celebra os 100 anos da monarquia do país. Murais representam
eventos históricos. A vista desta zona é fabulosa, com panorâmicas lindíssimas
dos picos nevados dos Himalaias, com destaque para Gangkhar Puensum, com 7.570
metros de altitude. O nevoeiro permitiu apenas pequenos vislumbres dessa
beleza.
Um pouco mais adiante, nova
paragem para um reconfortante chá, que apesar de ser Primavera, fazia frio. O
café tem vista privilegiada para as montanhas, mas infelizmente o nevoeiro não
permitiu desfrutarmos dessa beleza. Um simpático gato amarelo, não nos largou
um segundo. O almoço foi num pequeno restaurante na aldeia de Sopsok, já perto
de Punaka. Aproveitámos a tranquilidade do local para uma caminhada, entre lindíssimos
arrozais, e fomos parar a um templo, Chimi Lhakhang, também conhecido por
templo da fertilidade, construído em 1499. As casas nestas paragens são
adornadas com símbolos fálicos, por influência do templo. Localmente também
conhecem o templo como “No Dogs Temple”, devido à lenda de um demónio que se
transformou em cão. Mas cães no templo, estavam por todo o lado. A lenda já não
surte efeito.
Antes da visita a Punakha,
check-in no hotel Zangto Pelri, localizado numa colina, com uma vista
espetacular para o vale de Punakha e da cidade de Khurutang. Logo a seguir,
partida para visitar a imponente fortaleza, o Punakha Dzong, uma das mais icónicas
do Butão. Construída entre 1637 e 1638, é um exemplo notável da arquitetura
tradicional butanesa. Até 1955 foi o centro administrativo e sede do governo.
Alberga algumas relíquias sagradas, e em 1907 foi o palco da coroação do
primeiro rei do país. Dizem que o arquiteto responsável pela construção da
fortaleza, teve uma visão e não recorreu a nenhum desenho para orientar as
obras. Paga-se para entrar, e no interior do templo não é permitido fotografar.
Como na maior parte das fortalezas do país, todas têm uma parte civil e outra
religiosa. É aqui que se encontra o registo civil, o tribunal, entre outros
serviços públicos.
A Ana escapou por pouco ao
“tributo” da tarde. Os monges que vivem no templo oferecem de manhã e à tarde
água aos deuses, atirando um balde desse líquido pela janela do piso superior.
Por sorte o monge viu-a a tempo. De outra forma tinha ficado abençoada para
vários anos. Na cidade era hora de final de aulas. As ruas estavam vibrantes de
crianças de várias idades, todas devidamente uniformizadas, em tons de azul, com
o traje tradicional do país, transportando sem exceção, mochila e lancheira
para as refeições. Pequenas barraquinhas faziam as delícias dos que tinham
dinheiro para comprar alguns doces. As máquinas fotográficas fizeram sucesso
entre os jovens, que nos abordavam muito para tirarmos fotos. Lojas, muito
poucas e apenas para os locais. De regresso ao hotel, notámos que as montanhas
estavam pontilhadas de pequenos pontos azuis. Eram os estudantes, de regresso
às suas casas, em estreitos carreiros de terra, porque transporte escolar não
existe. Muitos deles fazem bastantes quilómetros por dia, para irem à escola, e
de inverno, por estas paragens não deve ser situação muito fácil.
No hotel, descoberta de uma peça
de museu. Um cinzeiro na lateral da entrada! Jantar no hotel, sem picante, e a
noite foi passada a falar com os vários guias que ali estavam. O tema principal
foi a questão do tabaco. Era raro o guia que não estava na rua a fumar, o que
para eles é totalmente ilegal. Desde 2005 a venda do tabaco foi proibida e
desde este ano, 2011, o butanês que for apanhado a fumar em público pode
incorrer numa pena de prisão até 3 anos. No momento, havia já bastantes pessoas
encarceradas devido a isso. Para se poder ter cigarros, as pessoas têm de ter
uma autorização especial da Alfândega e pagar impostos altíssimos na fronteira.
Os salários auferidos não permitem isso. O salário médio são 8.000 rupias, mais
ou menos 200 USD. Apesar de ter moeda própria, usa-se muito a Rupia indiana,
que tem paridade.
Um dos nossos guias, formado em
informática, curso que tirou na Índia, dedica-se como freelancer a esta
atividade turística, para ter mais um rendimento. Com 24 anos, pensa sair do
Butão. As pessoas mais jovens estão contra a lei do tabaco, a questão do uso do
traje nacional, entre muitas outras coisas. Só para se ter uma ideia, a
televisão chegou ao país apenas em 1999. E do que vimos, passa apenas programas
culturais de tradições do país e notícias, mas estranhamente em inglês.
Voltando ao tabaco e com todos a
fumar à porta do hotel, questionámos porque, sendo proibido, todos eles fumavam
na rua e como tinham tabaco. O tabaco é indiano e de contrabando. Licença
ninguém tinha. Mas a polícia ao hotel não ia. Mesmo assim ainda vislumbrámos um
dos guias a fumar muito escondido atrás de uma carrinha.
Meia hora de net paga na receção,
único local onde está disponível. A Ana como é honesta disse que utilizámos 2
computadores e lá pagámos 2 meias horas. Pedido de despertar para as 07H30.
Dia 6
O despertar aqui é algo sui
generis. Às 07h30 em ponto, alguém batia à porta, gritando “Hello Sir! Wake
up time!”. Depois de um belo pequeno-almoço, partida para Paro e de novo a
estrada das milhentas curvas. No tal café, o nevoeiro mantinha-se e nada de
vistas para os himalaias. Hoje, várias obras ainda atrasaram mais um pouco a
viagem. Muitos trabalhadores são mulheres, que fazem o mesmo trabalho que os
homens. Quer para uns quer, para outros, as regras de segurança são
inexistentes. Vários trabalhadores pintavam à mão, os riscos centrais da
estrada, sentados no chão, sem interrupção da circulação automóvel.
Almoço em Paro e check-in no
Hotel Olatang, um dos mais emblemáticos do país. Foi inaugurado em 1974 para
receber os convidados da coroação do rei, e é considerado o primeiro hotel do
Butão, com umas vistas lindas para o vale de Paro. Tem vários bungalows, de
arquitetura tradicional, onde ficámos.
Visita ao Museu Nacional, antiga
torre do forte de Paro, em que grande parte dos artefactos expostos são de
natureza religiosa. Vestuário, animais embalsamados, armas e selos, ocupam
algumas salas. No Butão ainda existem em estado selvagem Tigres de Bengala,
Leopardo das Neves, Urso Pardo dos Himalaias. Quanto aos selos estarem no
museu, a explicação vem da sua grande procura por colecionadores de todo o
mundo. Os selos têm uma importância enorme no país, como ferramenta de promoção
cultural e educacional.
Perto da cidade, num longo campo
plano, várias pessoas faziam tiro com arco, o desporto nacional. Os arqueiros
disparam a longas distâncias, e sempre que se acerta no alvo, o que é muito
comum, os adversários também celebram essa conquista. Ficámos ali um bom pedaço
a observar a mestria e toda a atmosfera envolvente deste desporto tão
apreciado.
Regresso ao nosso alojamento e
caminhada pela propriedade do hotel, inserido numa zona de natureza muito
tranquila. O jantar foi romântico, porque faltou a luz e os empregados, já
certamente habituados a falhas energéticas, rapidamente iluminaram a sala com
dezenas de velas. Mais tarde reparámos que até os quartos estão equipados com
fósforos e velas.
Dia 7
O dia estava reservado à passagem
perto do Tiger’s Nest, ou de nome oficial Paro Taktsang, e ao seu campo base. A
decisão de não subir estava tomada, porque iria ocupar uma parte muito longa do
dia, e era o nosso último, havendo ainda algumas experiências que gostaríamos
de concretizar. O Tiger’s Nest é um mosteiro budista e um dos locais mais
sagrados do país. Está a 3.120 metros de altitude, construído no século XVII
num penhasco, e em condições normais, a ascensão demora 3 horas, mas para
fumadores e em altitude, podem acrescentar uma hora pelo menos. Com mais uma
hora para voltar, e uma hora para visita, é programa para 5/6 horas. Não se
pode fotografar, o que ainda é mais desmotivador, para nós.
Optámos por outro programa, tendo
pedido aos nossos guias duas situações: visitar uma escola e uma casa de
pessoais locais. E assim foi. Paragem numa escola, e após duras negociações do
nosso guia com o diretor da mesma, conseguimos o primeiro objetivo do dia.
Fomos acompanhados por um professor de informática até uma turma do 8º ano. A
turma tinha 30 alunos e estavam todos muito envergonhados com as visitas, as
primeiras estrangeiras certamente. Quando entrámos na sala, os alunos prontamente
se levantaram e apenas se sentaram à ordem do professor. Apresentámo-nos e
perguntámos se sabiam onde era Portugal, ao que um dos alunos levanta o braço e
responde, que era um país europeu e que fazia fronteira com Espanha. Cristiano
Ronaldo passou a ser o tema de conversa. Como já mencionámos, todas as
disciplinas são lecionadas em inglês, e a escola tinha aspeto de construção
recente e com excelentes condições. Depois de uma ruidosa e em coro despedida,
fomos visitar o templo de Kyichu Lhakhang.
Este templo, a 2.600 metros de
altitude, e um dos mais antigos do país, construído no século VII, tem a
particularidade de ter duas laranjeiras, consideradas símbolos de boa sorte e
prosperidade, uma vez que a esta altitude não será normal que estas árvores se
desenvolvam. Descobrimos que há no país um projeto agrícola de cultivo de maçãs
a 2.000 metros de altitude. Não conseguimos provar nenhuma, mas o guia
assegurou-nos que são deliciosas.
Depois de uma oferenda a Buda, o
ritual que cumprimos a seguir, consistiu em beber água com cânfora. A água é
colocada na nossa mão, bebida e depois deve-se passar a palma da mão pela
cabeça. É um ritual purificador, uma vez que se acredita que a cânfora tem o
poder de limpar a mente e o espírito, trazendo bênçãos e prosperidade. Como no
budismo a cabeça é a parte mais sagrada do corpo, passar a mão sobre ela, é uma
forma de aceitar a bênção divina e de receber boa sorte e proteção. É também um
ato de humildade e respeito perante os ensinamentos espirituais, e uma forma de
nos conectarmos com a energia do templo.
A seguir ao almoço, indicação do
guia que estava tudo tratado para a visita à casa de uns agricultores, e assim
sendo, o segundo objetivo estava alcançado. Fomos muito bem recebidos logo à
entrada da casa pelo casal, uma habitação tradicional de agricultores,
construída em tijolos de lama e madeira. Habitação muito humilde, praticamente
sem nenhum tipo de mobiliário ou decoração. As únicas decorações que vimos,
eram fotografias retiradas de antigos calendários de parede e estranhamente
posters de wrestling, alguns do Batista, o que não condizia nada com esta
família, muito simples. Levaram-nos para uma salinha, onde havia algumas
cadeiras e fomos agraciados com um tipo de arroz tostado e seco, misturado com
manteiga feita por eles, e meus caros, há muito tempo que eu não sentia o
verdadeiro gosto da manteiga. Que delícia! Retrocedi vários anos, a uma
velocidade vertiginosa, aos meus tempos de criança e a um sabor inesquecível,
mas que se perdeu, o da manteiga artesanal. A seguir, a dona da casa traz-nos
um tacho com uma bebida, quente, a Ara. Esta bebida é oferecida em ocasiões
muito especiais e um sinal de boa hospitalidade. É feita à base de arroz
fermentado, ficando semelhante à nossa aguardente. É aquecida e misturada com
ovos batidos, que cozinham no calor da bebida, sendo ainda acrescentada
manteiga. A Ana não ficou fã, eu bebi duas tacinhas. Ainda nos ofereceram
sementes de malagueta, para plantarmos em Portugal. Posso acrescentar que não
ficaram com o mesmo sabor das que provei. Experiência enriquecedora, e apesar
de nenhum de nós se entender diretamente, comunicámos imenso. Por poucas vezes
o guia serviu de tradutor.
Regresso a Paro para visita à
fortaleza da cidade, Rinpung Dzong, onde foram filmadas várias cenas do filme
de 1993, de Bernardo Bertolucci, “O Pequeno Buda”. Neste filme, a fortaleza
representou o mosteiro de Lhasa, no Tibete. Regresso ao carro para ir buscar um
casaco, porque não se pode entrar de t-shirt.
Depois desta visita, passeio pela
cidade de Paro. O vermelho das réstias de malaguetas a secar ao sol, dão um
colorido interessante às ruas. Num pequeno largo, um velhote cortava ossos de
animais em pequenos pedaços, em cima de enorme tronco de madeira, já concavo de
tanto golpe da machada. Ao lado ia fazendo uma pilha, que em certas partes
estava preta, tal o acumulado de moscas. Soubemos à noite, que aqueles ossos
são secos ao sol e utilizados durante o inverno para fazer sopas.
Última noite e convidámos o nosso
guia e o nosso motorista para jantarem connosco no hotel. Infelizmente a entrada
do motorista foi barrada, não podendo aceder à sala de refeições. Nem com muita
negociação o diretor do hotel acedeu ao nosso pedido, sendo o jantar apenas a
três e não a quatro, com muita pena nossa. Hoje vimos as notícias da TV e tinha
sido o último dia para levantar o bilhete de identidade. A reportagem que vimos
era o caos completo. Entravam numa sala 2 ou 3 pessoas de cada vez, e cada uma delas
é que tinha de procurar o seu documento.
Reencontro com o motorista depois
do jantar, conversa e entrega do tabaco que nos sobrou.
Dia 8
Saída do hotel bem cedinho, às
05H00. Levantámos o volume de tabaco que deixámos ficar e voo para Kathmandhu,
desta vez do “lado certo” do avião, o direito, para apreciarmos toda a beleza
da cordilheira dos Himalaias.
O alojamento foi de novo no hotel
Annapurna, onde reencontrámos o trintanário, que nos reconheceu de imediato.
Sai continência! Desta vez tínhamos um guia, o Aryal, que falava espanhol.
Levou-nos ao Templo dos Macacos, Swayambhunath Stupa, um dos mais sagrados para
os budistas no país. Está no topo de uma colina, e tem uma vista fantástica
sobre a cidade. Os macacos são bastantes e considerados guardas espirituais.
Sempre muita atenção a estes “guardas” que muitas vezes “guardam” pertences dos
visitantes, principalmente óculos. É um local de templos hindus e budistas.
Para o acesso ao topo, há que subir 365 degraus, um por cada dia do ano.
Depois desta visita muito
espiritual, fomos para Kathmandu Durbar Square. No caminho, ouvimos música
vinda de uma das ruas e a nossa curiosidade encaminhou-nos de imediato para lá.
Uma banda tocava música tradicional, à porta de uma casa. Espreitámos e era… um
casamento! Um senhor bem-vestido aparece, fala-nos em inglês, apresentando-se
como pai da noiva e convidando-nos a entrar, ao que acedemos de imediato. Mais
uma experiência que nos iria ficar na memória de certeza. A Ana foi visitar o
quarto da noiva, onde ela era arranjada e pintada com hena, e eu fiquei junto
ao noivo, que quis tirar muitas fotografias comigo. Infelizmente, estando com
guia, tivemos de abandonar a cerimónia, com pena nossa e do pai da noiva, que
fazia muita questão que estivéssemos presentes no banquete. Finalmente chegámos
a Durbar Square, Património da Unesco, localizada no coração da cidade. Muitos
templos e palácios históricos, como o Hanuman Dhoka Palace. Também é aqui a
casa da famosa deusa viva, Kumari, que tem uma história difícil de entender
para a nossa cultura. Uma história que merece uma descrição detalhada, no parágrafo
seguinte.
A história começa há muito tempo,
no século XVIII, com o rei Jayaprakash Malla. Este rei jogava dados todas as
noites com a deusa Taleju, que lhe aparecia em forma humana. Um dia, teve
pensamentos impróprios com a deusa, que desapareceu. Antes de ir, disse ao rei,
que voltaria a reencarnar no corpo de uma menina da casta Shakya, e que ele
deveria construir uma casa para ela, pois ao palácio ela não voltaria. E assim
nasceu a história da deusa viva, a Kumari. É uma menina, geralmente escolhida
entre os 4 e os 7 anos, considerada então a reencarnação temporária da deusa
Taleju, e venerada tanto por hinduístas como budistas. A escolha da criança
obedece a regras muito rígidas. Para além da casta, tem de ter 32 sinais
físicos, como olhos, dentes, pele, voz, etc. Tem de passar pelo teste de
coragem, que é passar uma noite num quarto cheio de cabeças de animais
sacrificados para provar que nada teme. Além de tudo isto, astrólogos e
sacerdotes, têm de garantir que o seu horóscopo está alinhado com a deusa
Taleju. A Kumari vive em reclusão dentro da casa construída pelo rei, que na
época, a construiu em 6 meses, utilizando 1000 trabalhadores. Sai apenas em
procissões que ocorrem em datas festivas, e nunca fala com ninguém em público.
Não pode ter visitas nem dos pais, nem de familiares. Tem escola com
professores privados que vão a sua casa, e algumas crianças são convidadas a ir
brincar com ela. De vez em quando vai ao varandim interior espreitar para o
pátio, o que é um sinal de extrema boa sorte a quem estiver presente nessa
altura e a conseguir ver. Nós não tivemos essa sorte, mas ficámos convencidos
de ter ouvido a voz dela no piso de cima. A Kumari perde o seu estatuto quando
menstrua pela primeira vez. É considerado que o corpo deixou de ser puro para
hospedar a deusa. E recomeça o ciclo, com dezenas de enviados especiais, a
percorrem o país, procurando crianças com as 32 características. Estas crianças
têm uma adaptação difícil quando abandonam a casa, porque estiveram muitos anos
isoladas, e não casam, porque segundo a lenda, se casarem, o marido morre em 6
meses.
Depois desta visita muito
especial e diferente, fomos para a Praça dos Hippies, ou, oficialmente, Rua
Jhochhen Tole, que ficou mundialmente famosa nos anos 60 e 70, como um dos
pontos centrais da rota hippie da Ásia. Não seria indiferente este afluxo à
legalidade do haxixe no Nepal. Nos anos 70, por pressão internacional, o Nepal criminalizou
o haxixe, e os hippies foram para outras paragens, mas a zona mantém uma
atmosfera nostálgica, parecendo ter parado no tempo, pelo que a visita se torna
muito interessante. Cafés inalterados desde há muitos anos, pequenas lojas que
vendem posters de bandas dos anos 70, discos que já são difíceis de encontrar,
artistas de rua, alfarrabistas, tudo nos transporta para muitas décadas atrás.
Estes seriam os únicos turistas neste país em tempos idos, até porque a viagem
se fazia de autocarro a partir de Nova Deli, na Índia, a 1.000 quilómetros de
distância, numas 30 horas alucinantes certamente.
O primeiro avião europeu a
aterrar em Kathmandhu remonta a 1982, e o país foi descoberto pelo turismo em
1985.
O almoço foi tradicionalmente
nepalês, com o nosso guia da manhã, que convidámos a juntar-se, num restaurante
para locais e não para turistas. Sentados no chão e a comer à mão, uma das
melhores formas de nos alimentarmos. Começámos com uma aguardente de arroz,
sopa e arroz com carne, que estava mesmo bom, bem como os vegetais e as
lentilhas pretas. À parte, uma tacinha com malaguetas. Claro que comi. A Ana
deu uma trinca numa delas, e ia morrendo. O guia só lhe dizia para comer cubos
de açúcar que lhe ia rapidamente passando. São estas experiências que nos ficam
na memória, e que nos levam a viajar pelo mundo, conhecendo o mais possível as
culturas locais. Soubemos que o nosso guia não tinha religião, o que nos
espantou bastante, e fez-nos muitas perguntas sobre Portugal e sobre divórcios.
No Nepal há muito poucos divórcios, mas ele parecia bastante interessado no
assunto. Depois do almoço, deixou-nos no hotel, uma vez que o contratámos para
apenas ter rapidez nas visitas que gostaríamos de fazer, sendo este o nosso
último dia. A parte da tarde foi como gostamos em “free style”, a perdermos-mos
pelas intricadas e confusas ruelas da cidade interagindo sempre que possível
com os locais. Fomos de novo ao bazar, e decidimos fazer um momento de
reflexão, num dos muitos templos que existem por toda a cidade. Depois de uns
minutos de introspeção, um local veio ter connosco e começou à conversa. Soubemos
que o Nepal em peso torce pela Seleção Portuguesa de Futebol, devido ao Ronaldo.
Detesta os políticos nepaleses, muito corruptos segundo ele. Conversa muito
interessante, para final de viagem, num país com pessoas fantásticas e onde um
dia voltaremos para uma exploração mais profunda deste país.
Resumindo, dois países quase
vizinhos e duas culturas completamente diferentes, quer na sua organização do
estado, quer na religião, quer na forma de turismo, quer no seu equilíbrio
social. República do Nepal com 30 milhões de habitantes, essencialmente hindus,
e com um turismo massificado, e a Monarquia butanesa com 800.000 habitantes,
maioritariamente budistas, e com um regime de turismo controlado e único no
Mundo, e caminhando para não haver desigualdades sociais, para além de ter a
particularidade de termos a sensação de estar dentro de um “museu vivo”, pela
cultura tradicional que o país promove.
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