Sarajevo dia 4
Hoje dia dedicado a museus,
ligados aos trágicos acontecimentos que esta cidade sofreu com o seu cerco.
Tentámos de novo entrar na
Catedral, mas sem sucesso. Não há forma de ultrapassar o “portas”.
Começamos pela Galeria 11/07/95,
um memorial que tenta preservar a memória da tragédia de Srebrenica e das 8.372
pessoas massacradas, num genocídio reconhecido pelo Tribunal Penal
Internacional, numa limpeza étnica sem precedentes, desde a II Guerra Mundial.
O museu ou galeria, tem um mural com o nome de todas as vítimas, retratos das
vítimas, fornecidos por familiares, fotografia documental, mostrando cenas de
exumações e a vida pós-genocídio, num verdadeiro murro no estômago. Tem também
um vídeo muito interessante sobre a vida da população durante o cerco de
Sarajevo, e sobre tudo aquilo que fizeram para terem uma vida o mais normal
possível.
Srebrenica era uma “zona segura“da ONU, sob
a proteção de soldados holandeses. Em julho de 1995, tropas sérvias cercam a
cidade e em poucos dias invadem-na sem que as forças da ONU consigam fazer
alguma coisa, e separam homens e rapazes das mulheres e crianças, levadas para
campos de refugiados. Os que ficam, são assassinados.
Por acontecimentos como este, as
Nações Unidas, ou UN, ficaram conhecidas por aqui como “United Nothing”!
Numa das ruas, já da parte
ocidental, descobrimos um velhinho simpático que vendia, feito em croché, o símbolo
sobre o massacre de Srebrenica. Vai estar em destaque na mochila que
normalmente me acompanha em viagem.
Fomos também ao Museu dos Crimes Contra a
Humanidade e Genocídio. Se o anterior era duro, este é duríssimo. Museu focado
nos horrores da Guerra da Bósnia, campos de concentração, violência contra
civis, torturas. Expõe objetos pessoais das vítimas, recria celas de
confinamento, objetos de tortura, vários vídeos documentais sobre a guerra e
sobre o cerco a Sarajevo. É um projeto de memória ativa e coletiva, apoiada
pelos sobreviventes, para garantir que a história não se apaga, e que situações
destas não se devem repetir.
Para relaxar um pouco destas duas
intensas visitas, fizemos um pequeno passeio ribeirinho junto ao rio Miljacka,
que divide a cidade. Começamos na Vijecnica, o grande edifício alaranjado, em
estilo neomourisco, presentemente a Câmara Municipal. Era uma antiga biblioteca
municipal, com um tesouro riquíssimo em livros raros e que deliberadamente foi
bombardeado e incendiado. Como as pontes são muitas, fomos passando de margem
para margem.
Fomos visitar a Catedral Ortodoxa
de Theotokos, sem algum problema, ao contrário da Catedral Católica. Numa praça
perto, um jovem e um menos jovem, disputavam uma concentrada partida de xadrez,
num gigante tabuleiro que havia no chão, com peças gigantes também. Continuamos
e fomos parar ao mercado Markale, uma perdição de queijos, carnes fumadas,
secas e enchidos. Que maravilha! À saída, notámos uma placa sobre a morte de 67
cidadãos de Sarajevo, em 5 de fevereiro de 1994, num bombardeamento sérvio.
Houve um segundo ataque ao mesmo local a 28 de agosto de 1995, e foi este
acontecimento que despoletou a intervenção da NATO, com a liderança dos EUA, no
bombardeamento de forças sérvias. Daí a adoração pelos EUA.
Último jantar em Sarajevo, e a
zona escolhida teria de ser a oriental.
Aproveitámos para ver a Torre do
Relógio, o único a ter horário lunar, e visitar o bazar coberto do século XVI,
que não nos surpreendeu muito. Quase tudo lojas de souvenirs.
Hoje estava previsto irmos provar
os raviolis típicos da cidade, mas com o Ramadão, o restaurante esgotou
os jantares. Em frente um tasco já conhecido, ainda tinha vaca com batatas,
cozinhado em lenha, que estava uma delícia. Passeio noturno pelo bairro, sempre
muito animado e cheio de iluminações, provavelmente pelo mês do Ramadão.
Sarajevo dia 5 e último
Dia de levantar cedo, porque às
11h30 transfere para o aeroporto, oferta do hotel.
Encontro bem cedo com a Leonor,
para as despedidas, agora já com o Pedro, chegado esta madrugada de Malta. Pequeno-almoço
numa padaria local, na parte oriental, na Pekara Edin, que tinha uns folhados
de salsicha que vão ficar gravados na memória por muitos anos! Finalmente, sem estarmos
a contar, descobrimos duas pequenas igrejas, uma católica e a outra ortodoxa,
onde pudemos entrar sem qualquer restrição. Em ambas acendemos umas velas, para
dar sorte e proteção nas viagens. Fazemos isso seja qual for a religião. Já não
havia muito a descobrir da cidade e voltamos a um ou outro local preferido, para
os últimos chás turcos.
Pessoas nascidas em Sarajevo, que
certamente conhecem: Jjubomir Stanisic, conhecido chef, que viveu na cidade na
altura do cerco e Emir Kustirica, músico e realizador de cinema.
Resumindo, Sarajevo é uma cidade
que merece muito a pena visitar. Muito compacta e para ser visitada a pé, com
calma, para descobrirem todos os seus pormenores e detalhes. Uma história
recente muito triste, mas um local a ser visitado, para que a memória não se
apague, e a história não se volte a repetir desta forma.
Despedidas finais e alguém ficou
com o resto do dinheiro local trocado e não gasto. Espero que não gastem tudo
em cerveja.... Transfere para o aeroporto, e dois voos aguardam-nos. Bye bye
Sarajevo!


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