Sarajevo dia 3
Dia para mais um banho de
história, com partes boas e outras menos boas, como se depreende de uma cidade
cercada durante quase 4 anos. Voltámos à agência, para fazer o tour “A queda da
Jugoslávia”.
Primeira paragem na Fortaleza
Amarela, Zuta Tabija, um dos melhores miradouros da cidade, e de onde se
compreende como a geografia influenciou o cerco.
A ex-Jugoslávia desintegrou-se em
1991, e logo as tensões surgiram, por diversos movimentos independentistas e étnicos.
A Bósnia e Herzegovina declaram a sua independência em março de 1992 e logo em
abril desse ano, Sarajevo é cercada por forças sérvias, iniciando-se a guerra
da Bósnia, em que as três etnias acabaram por lutar todas entre si, num
conturbado período de alianças e desalianças, e que infelizmente levaram a
episódios de limpezas étnicas completamente atrozes, numa guerra selvagem. O
cerco terminou apenas em março de 1996.
Estando a cidade num vale,
rodeada de montanhas, as forças sérvias cercaram com facilidade Sarajevo,
controlando todas as rotas de entrada e saída, cortando o acesso da cidade ao
mundo. Diariamente Sarajevo suportou bombardeamentos e os temíveis snipers,
que disparavam contra tudo o que se movimentasse. Uma das ruas mais perigosas
era a Sniper Alley, uma vez que alguns arranha-céus foram tomados pelos
sérvios, local onde se instalaram grande parte dos atiradores. Hoje é a Avenida
Aliya Izetbegović.
Mas os habitantes resistiram como
puderam, criando uma forma de normalidade, através da cultura, com concertos,
exposições, teatros. Muito famoso ficou o concurso de beleza Miss Sarajevo, um símbolo
de resistência, esperança e humanidade. Deu origem à música dos U2, “Miss
Sarajevo”, lançada em 1995. Também Bruce Dickinson, vocalista dos Iron
Maiden fez um concerto na cidade em 1994, tendo-lhe sido atribuída mais tarde,
a cidadania honorária de Sarajevo.
Durante o cerco, tudo foi
racionado. As árvores foram para lenha, os móveis também. Arranjar água era
complicado. Comida ainda pior, havendo só alguma ajuda humanitária, via
aeroporto, que as forças das Nações Unidas sempre controlaram. Onze mil civis
perderam a vida.
Mas em 1994, um túnel secreto,
sob o aeroporto da cidade, foi construído para abastecer a cidade de alimentos,
medicamentos, armas, evacuar feridos, passar um cabo elétrico e outro de
telefone. Tunel Spasa ou Túnel da Salvação. Com 800 metros de comprimento, 1
metro de largura e 1,6 metros de altura, mostra bem a tenacidade, resistência e
resiliência de um povo.
Hoje é visitável uma parte, o que
fizemos, num percurso de pouco mais de 20 metros. Tem também um pequeno museu
de apoio, muito interessante. A entrada estava camuflada numa casa particular,
e os sérvios, apesar de saberem da existência do túnel, nunca conseguiram saber
a sua localização.
Continuando a nossa visita à história, passámos por alguns locais como
campos de futebol transformados em cemitérios, e um jardim num cemitério de
crianças.
Um dos orgulhos da cidade
continuam a ser os Jogos Olímpicos de Inverno, organizados em 1984, numa
primeira vez num país socialista. No monte Trebevic foi instalada a pista de bobsleigh,
que foi duramente afetada pela guerra, servindo de posições defensivas e de
posições de artilharia sérvias. Hoje, apesar de destruída, é um museu de arte
urbana, bem interessante. É das paisagens urbanas de Sarajevo mais fotogénicas
e surreais. Apesar do tempo já percorrido, estes Jogos são lembrados e
perdurados como um tempo de harmonia multicultural, uma memória nostálgica de
tempos de paz, que antecedeu uma das fases mais difíceis da história da cidade.
A parte da tarde foi mesmo
deambular pela parte ocidental da cidade. Tentámos entrar na Catedral, mas
fomos barrados. As desconfianças ainda são muitas e o porteiro é bastante
diligente, em barrar desconhecidos.
Voltámos ao Nune Cevapi, para
mais um almoço local.
Na nossa exploração desta zona da
cidade, descobrimos o Café Tito, um café totalmente dedicado ao Josip Tito, o
ex-líder totalitarista da Jugoslávia, o que nos surpreendeu bastante. Pelos
vistos, o Marechal ainda tem alguns seguidores no país. Mas como espaço de Café,
tem um ambiente muito agradável, numa viagem pela história da Jugoslávia. O
café também é bom, e a visita recomenda-se. Passa-se um bom par de horas no local,
a ver todos os artefactos, tal qual um museu. Bustos de Tito, posters, jornais,
mobiliário, objetos militares, entre outros dão uma atmosfera especial para os
nostálgicos do socialismo. Está aberto 24 horas.
Perto, a não perder, o monumento
à carne enlatada, ICAR, uma das principais fontes de proteína no período do
cerco. Mas feito de uma forma critica, uma vez que grande parte das latas era
de carne de porco, e a população cercada era maioritariamente muçulmana. Muitas
das latas ainda tinham inscrições da Guerra do Vietname, ou seja, com mais de
20 anos. No pedestal há a inscrição irónica “Monumento à Comunidade
Internacional pelos cidadãos gratos de Sarajevo”.
Pela cidade, arte urbana vai
surgindo, e sempre de muita qualidade. Na parte ocidental, passámos pela Chama
Eterna, memorial inaugurado em 6 de abril de 1946, primeiro aniversário da
libertação da cidade da Alemanha nazi. Homenageia os libertadores da cidade e
das vítimas da Segunda Guerra Mundial e do mais recente cerco de Sarajevo.

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