SARAJEVO - Crónica 2 de 4 - MOSTAR

 

Sarajevo dia 2 – Mostar

O segundo dia nos Balcãs começou mesmo bem cedo, porque o roteiro de viagem era bem completo e longo.

A primeira paragem foi na histórica e pitoresca cidade de Konjic, já na Herzegovina.

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Aproveito para explicar sucintamente o complexo modelo de governação deste país, para se entender um pouco melhor, estas divisões.

A Bósnia e Herzegovina é um único país, mas internamente é uma federação composta por duas entidades: a Federação da Bósnia e Herzegovina e a República Sérvia e ainda o do Distrito de Brcko. Na Bósnia e Herzegovina vivem essencialmente bósnios, muçulmanos, e croatas, católicos. República Sérvia vivem essencialmente sérvios, cristãos ortodoxos. Distrito de Brcko, é neutra e comum às duas entidades. A presidência do país tem 3 presidentes, um de cada grupo étnico, que se revezam a cada 8 meses. Como veem, o sistema é bastante complexo e de um equilíbrio muito precário, num verdadeiro barril de pólvora.

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Voltando à antiga cidade de Konjic, habitada desde os romanos, e numa fria manhã primaveril, mas com uma luz fantástica, nada como beber um belo chá, para aquecer. A ponte antiga da cidade, que atravessa o rio Neretva, é linda, e remonta ao período otomano.

De volta à estrada, num percurso sempre perto do rio, mini-hídricas formam lagos, que hoje, sem vento, são verdadeiros espelhos de toda a beleza natural que os rodeia.

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Parámos num local de restaurantes, onde se faziam os preparativos para a iguaria local, borrego, lentamente assado sobre brasas. Ainda era cedo para provar tal petisco, pelo que ficaria para outra oportunidade. Falando com um local, disse-me que o melhor peixe que aqui comem é quando o borrego se atira para a água.

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De volta ao bus, e sempre no vale onde serpenteia o rio, paragem na impressionante aldeia medieval, Pocitelj. Construída no século XIV, numa íngreme encosta, oferecia uma posição defensiva natural, sendo uma fortaleza militar e ponto de controlo importante do rio, quer na idade média, quer no período otomano. Quase toda a aldeia é de construção tradicional otomana, com casas de pedra e telhados de placas de xisto. Com pouco acesso a veículos, mantém a sua atmosfera medieval, e dos pontos mais elevados tem vistas muito bonitas para a natureza que a envolve. Numa praça, à entrada da aldeia, simpáticas senhoras vendem pacotes de amendoins e alperces secos, de um sabor excelente.

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Ainda a caminho de Mostar, paragem nas cataratas de Kravice, já muito perto da Croácia. Uma maravilha natural e cénica, que merece a visita. Têm uma largura de quase 120 metros e uma queda de 25 metros de altura. Em dias quentes, deve ser bem agradável um banho nas suas águas.

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O almoço, já tardio, foi na nascente do rio Buna, um local de beleza natural impressionante. O rio nasce numa enorme caverna, na base de um penhasco com 200 metros de altura. É aqui também que se encontra a Dervish House, um mosteiro da Ordem Sufista dos Derviches, construído no século XVI. Existem muitos restaurantes na envolvente do rio, que servem essencialmente pratos de peixe. Um local relaxante, onde merece a pena desfrutar um pouco da beleza que nos envolve.

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Após uma curta viagem, finalmente Mostar, uma das mais famosas e sublimes cidades do país, pela sua história, arquitetura e pontes icónicas. É a capital da Herzegovina. Fundada no século XV, tornou-se rapidamente um centro administrativo e comercial. Durante a Guerra da Bósnia, a cidade sofreu severos danos, tendo sido destruída a ponte Stari Most, reconstruída mais tarde, com técnicas antigas e pedras originais, sendo atualmente Património Mundial da UNESCO.

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A cidade velha, ou o Old Bazaar, tem ruas deliciosas. Estreitas, com piso de pedra, com pequenas lojas, cafés e galerias. Muitas lojas dedicadas ao vinho, sendo esta uma região vinícola com importância.

Mostar já foi palco por algumas vezes do Red Bull Diving World Series, com saltos de uma plataforma 27 metros acima do Rio Neretva, localizada na muito conhecida ponte Stari Most. Também localmente, acontece todos os anos, em julho, um festival de mergulhos, para amadores, numa tradição com mais de 400 anos, também da mesma ponte.

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Pela cidade, ainda se vêm as marcas da guerra em muitas paredes. Durante esse período, a cidade, que era multicultural, foi dividida pelo rio, ficando na cidade antiga os bósnios muçulmanos e do outro lado os croatas, levando à destruição da ponte antiga pelos croatas, em 1993. Milhares de pessoas foram deslocadas das suas casas.

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A divisão étnica ainda é visível, e a cidade terá certamente desafios grandes de coexistência cultural e social. Há duas companhias telefónicas, duas companhias de eletricidade, entre outras situações. Muitas escolas continuam segregadas por etnias. Vê-se bastante a bandeira croata. Pelo que soubemos, ainda há crianças que não atravessam a ponte, porque os seus familiares também não o fazem. A cidade tem apostado fortemente em eventos culturais que unam os jovens das duas margens, mas levará tempo a sarar todas as feridas, por todas as atrocidades cometidas e pelas “limpezas” étnicas que infelizmente tiveram lugar. As marcas continuam lá e as diferenças também. Sobre os políticos, dizem-nos que são cada vez mais corruptos, e num sistema tão complexo, já nem a população entende bem o que se passa. Os jovens e os profissionais qualificados têm emigrado em massa.

Regresso a Sarajevo, ainda a tempo de ir jantar com a Leonor, mais um fantástico e delicioso burek, num outro restaurante tradicional na zona oriental, e um belo de um chá, no caranvançai.

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