As próximas crónicas vão
descrever uma viagem à cidade de Sarajevo e à cidade de Mostar, Na Bósnia e
Herzegovina, ambas muito atingidas pela guerra da Bósnia, num passado recente. Tentaremos
mostrar a beleza das cidades em contraste com todo o sofrimento passado, e
entender a esperança de que o futuro seja completamente diferente, num ainda “barril
de pólvora”, pelo que percebemos.
Sarajevo – dia 1
Aproveitando o Erasmus da Leonor
nesta cidade, seria imperdoável não visitar ambas, num país ainda desconhecido
para nós.
Chegámos à cidade na noite do dia
anterior, numa fria noite de abril, num voo via Frankfurt, uma vez que, de
Lisboa não há voos diretos. Alojamento no hotel SAHAT, https://www.notahoteli.com/hotelsahat/home,
unidade recente e muito acolhedora, na parte ocidental. Dormir, que o despertar
será bem cedo, porque há muita coisa para fazer.
Sarajevo é uma cidade com uma
longa história, e um mosaico complexo e periclitante, num equilíbrio precário entre
povos e culturas, muito difícil de acalmar. Fundada no século XV, em 1461 pelo
Império Otomano, destacou-se muito rapidamente como uma das cidades mais
importantes dos Balcãs. Em termos geográficos, a cidade passou a ser a porta de
entrada para a Europa, funcionando como uma verdadeira ponte entre o ocidente e
o oriente.
Em 1878 o Império Austro-Húngaro
assumiu o seu controlo, trazendo um novo planeamento urbano, bastante diferente
do até então, dividindo a cidade em parte ocidental e parte oriental, havendo
até uma frase escrita “Sarajevo, onde as culturas se encontram”, local onde a
paisagem urbana muda completamente. Na parte oriental, as estreitas e labirínticas
ruas, muitas pequenas lojas de artificies, mesquitas, mercados repletos de
aromas de especiarias e café. Na parte ocidental, avenidas largas, praças,
jardins, igrejas, sinagogas, lojas modernas, hotéis e edifícios de estilo
europeu.
Em 1914, Sarajevo entrou
definitivamente para a história, com o assassinato, em 28 de junho, na Ponte
Latina, do Arquiduque Francisco Ferdinando da Áustria, herdeiro do trono
austro-húngaro, evento que despoletou o início da Primeira Guerra Mundial. Em
apenas 6 semanas, a Europa viu-se envolvida numa fratricida guerra, num negro período
da nossa história, e que durou 4 longos anos.
Despertar, pequeno-almoço para
dar energia e a cidade espera-nos. Quanto à Leonor, só mais tarde, pelo almoço,
porque as aulas não param, e há frequências, trabalhos para entregar e algumas
festas pelo caminho.
O ritual do costume, que passa
por ter algum dinheiro local e comprar cartão SIM do país. Tudo tratado, fomos
fazer um free tour pela cidade, com a agência Meet Bósnia, que recomendamos. https://meetbosnia.com/.
Após uma hora de excelentes
explicações, onde ficámos a saber muito mais sobre a história da cidade, era
tempo de irmos ao encontro da Leonor, depois de uns largos meses de afastamento.
Tempo de matarmos saudades, logo seguido de tempo de almoço e a escolha recaiu
sobre uma dica do guia, para um suposto melhor restaurante de cevapi da cidade,
por acaso desde sempre na sua família. E era mesmo bom! Este primeiro encontro
com um dos pratos famosos dos Balcãs, não foi uma frustração.
Cevapi é um prato que consiste em
pequenas “salsichas” de carne picada, temperadas e grelhadas, comidas com um
pão achatado tipo pita, cebola crua, molho picante ajvar, e um queijo
creme local. Simples e simplesmente delicioso! É considerado o prato nacional
da Bósnia e Herzegovina.
E a tarde foi para explorar o
bairro Bascarsija, no antigo coração otomano da cidade. Lojas deliciosas de
pequenos artesãos, que habilmente trabalham peças em cobre, fazem tapetes e
outro tipo de artesanato. Lojas de velharias ou antiguidades, como lhe queiram
chamar, com peças maravilhosas, mas pouco práticas de trazer para quem viaja de
mochila. De pequenos cafés saem aromas que quase nos enfeitiçam, e a escolha
recaiu, dica de uma cliente habitual, para uma paragem no CEJF, Coffee Roaster,
na Rua Kovaci nº 26. Escolha acertada, num ambiente acolhedor e familiar, num
antigo edifício de madeira, e uma seleção musical do melhor que tenho ouvido. O
café é mesmo excelente e torrado no local.
É neste bairro que também existe,
na praça Bascarsija, completamente dominada pelos pombos, a famosa fonte de madeira,
a Sebilj.
Visitámos também a Mesquita Gazi
Husrev-beg, uma das maiores mesquitas de Sarajevo, e uma das mais históricas
dos Balcãs, representando bem a herança deixada pelo império otomano.
Não muito longe, o WC mais antigo
da Europa, em funcionamento desde 1530.
Os caravançarai eram comuns nesta
parte da cidade. São estalagens nas rotas comerciais, especialmente na antiga Rota
da Seda. Eram locais seguros para descansar, quer os mercadores quer os seus
animais, e usufruir de alimentação fresca. Tipicamente têm um pátio central,
cercado por quartos, dentro de muros altos e apenas com um portão de entrada. O
último preservado na cidade é o Morica Han, na Rua Saraci. Construído no século
XVI, acomodava até 300 viajantes e 70 cavalos. O alojamento era gratuito, como
forma de promover e incentivar o comércio. Apenas o que era consumido no local
seria pago. Hoje é um ponto de visita
interessante com muitas lojas, cafés, e, durante a noite, bares e música, com
um ambiente fantástico.
Por toda a cidade se vão
encontrando tristes lembranças do cerco a que Sarajevo foi sujeita durante 3
anos, e a esse tema voltaremos. Com
frequência, placas em fachadas de prédios, assinalam a morte de civis. Deparamo-nos
também com as “Rosas de Sarajevo”. Assinalam no solo, as marcas de explosões de
morteiros, que provocaram pelo menos a morte de 3 pessoas. Infelizmente veem-se
bastantes. Creio que existem 200 espalhadas por toda
a cidade.
O símbolo da Coca-Cola quase que
é idolatrado, e nota-se um grande apreço pelos EUA, certamente pela sua
intervenção na guerra da Bósnia, que libertou a cidade do seu cerco. Em muitas
barbearias, o babete que tapa os clientes, é a bandeira americana. Até o nome
da cidade se vê em muitos locais com o lettering da Coca-Cola.
Perto da hora do por do sol, as
ruas começam a fervilhar de pessoas, esperando ansiosamente pelo Iftar,
ou seja, a quebra do jejum do Ramadão. Em Sarajevo, é anunciado pelo tiro do
canhão, disparado da Fortaleza Amarela.
Num pequeno restaurante, deliciamo-nos
com um burek e iogurte, simplesmente fantástico!
Amanhã o dia será de visita a
Mostar, com a agência do free walking tour.



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