Crónica 4 –
Balat, Fener e Eyüp
Balat,
é definitivamente uma das nossas zonas preferidas de Istanbul. Bairro com um
charme e um encanto muito especiais, situado nas margens do Corno de Ouro. Tem
uma diversidade cultural fortíssima, e ao longo dos anos foi o bairro que
albergou várias comunidades religiosas, como a judaica, a ortodoxa grega, arménia,
entre outras.
O bairro é também dos mais fotogénicos, famoso
pelas suas casas de madeira coloridas, fachadas otomanas recuperadas, murais
lindíssimos e com vistas fabulosas para a outra margem. Tudo isto provoca um
afluxo de influencers, na busca dos melhores spots insta gramáveis,
num frenesim de trocas de chapéus, vestes e acessórios. Na última viagem
verificámos que alguns locais já cobram pela entrada e pelas fotos. Felizmente,
os mais bonitos estão grátis. Para além de tudo isto, as sinuosas ruas do
bairro, dão-lhe um ar de pequena vila histórica.
 |
| Bairro de Balat |
É aqui também que se encontram muitas lojas
de arte moderna, galerias de arte, velharias, antiguidades, e acima de tudo o
nosso café preferido do mundo, o Naftaline, verdadeiro ícone do bairro e
de Istanbul, um local que não devem mesmo deixar de visitar, principalmente se
gostarem de gatos. Gostamos tanto, que o próximo parágrafo é apenas dedicado a
ele.
 |
| Naftalin, o nosso café de eleição na cidade |
Afinal, o que
torna o Naftaline um local especial? Tem uma decoração retro e vintage,
absolutamente fantástica, o que lhe dá uma estética nostálgica encantadora. Tem
objetos kitsch, que lhe dão uma alma gigante. E depois tem os gatos,
parte da família do café. Todos eles resgatados, que fazem parte integrante de
este conjunto absurdo e encantador simultaneamente. Os gatos circulam
livremente por todo o espaço, e não são raras as vezes que tomamos o
pequeno-almoço ou bebemos um chá, com um gato refastelado em cima da mesa, num
sono profundo, apenas interrompido por uma festa, mas que rapidamente é
retomado. A não perder as deliciosas bolachas caseiras em forma de cara de
gato. A melhor mesa, como todas, com uns longos napperons em croché, do
tempo das nossas avós, fica ao pé da janela grande da montra. Sentem-se,
relaxem, peçam um chá e bolachas, curtam os gatos e observem o movimento da
rua. Vão ficar viciados neste local. Levantando já um pouco o véu sobre o nosso
regresso à cidade, certamente no próximo ano, num projeto de exploração
exclusiva da parte asiática, viremos à parte europeia de propósito ao
Naftaline. Fica ainda uma questão para vos esclarecer, mas que deixarei para
vossa descoberta. Vão ao WC no Naftaline. Não vou dizer qual é a porta.
No final da crónica uma seleção de fotos do Naftaline, porque as imagens neste
caso falam melhor.
Já que falámos de gatos, Istanbul é
verdadeiramente a cidade dos gatos, sendo um dos animais mais estimados
pelos seus habitantes. A relação é única, afetuosa e culturalmente enraizada.
Até sinais de trânsito com gatos existem em determinadas zonas da cidade. Sem
exagero, podemos dizer, que os gatos estão por toda a parte, e não apenas nas
ruas. Lojas, mesquitas, transportes, em todos os locais é possível encontrar
pachorrentos gatos, sempre muito bem tratados coletivamente por moradores e
comerciantes. Por toda a cidade podemos encontrar pontos de comida e água,
casinhas, cobertores, tudo para o conforto destes habitantes da cidade. Não
será estranho o facto do profeta Maomé ter um grande apreço por gatos, e isso
foi-se aprofundando e enraizando no mundo islâmico. Istanbul é certamente o
local do mundo onde isso é mais notado, havendo até políticas públicas que
apoiam o bem-estar dos gatos de rua. Para quem quiser entender melhor este
fenómeno, aconselhamos que vejam o documentário de 2016, “Kedi-Gatos de Istanbul”,
que mostra a vida de 7 gatos de rua e o impacto que cada um deles tem na vida
dos humanos.

Voltando a Balat e a Fener, porque
são bairros que se misturam muito e acabamos por nunca saber onde estamos,
existem outros pontos interessantes a visitar, sendo que um deles nunca o
conseguimos fazer, e fica no bairro de Fener, o Colégio Ortodoxo Grego
Phanar, também conhecido pela “Escola Vermelha”, uma vez que foi todo
construído em tijolos vermelhos, importados de França. A sua arquitetura
neogótica e de imponente aparência, faz com que pareça um castelo. Dizem que o
interior da Igreja é muito bonito, mas sem visitas. Também por estes lados, num
bairro perto, outro local que tem estado em obras de recuperação, apenas
terminadas em 2024, continua na lista de locais a visitar na cidade, a agora
mesquita de Chora, inicialmente igreja, aquando da sua construção no
século IV. Em 1511 foi transformada em mesquita, mas mantem os símbolos
cristãos. Os frescos da igreja, dizem ser maravilhosos.
 |
| Colégio Ortodoxo Grego Phanar |
Já bem
pertinho das margens do Corno de Ouro, visitar a Igreja Ortodoxa Búlgara de
São Estêvão, conhecida pela Igreja de Ferro. Construída em 1898, toda a sua
construção foi feita em ferro, vindo da Áustria. Um local perfeito, sejam
crentes ou não, para acender umas velas a quem entendermos.
 |
| Igreja Ortodoxa Búlgara de São Estêvão |
Para quem
quiser provar o kebab do vaso de barro, o Testi kebabi, Balat pode ser
uma boa opção. Vários restaurantes na parte baixa do bairro servem esta
iguaria. Reparam logo, uma vez que todos os que o fazem, têm à porta vários potinhos. Basicamente este prato consiste
em cozinhar carne de borrego ou frango, misturada com vegetais e especiarias,
num pote de barro, que após selado com cera, é colocado em brasas. Até aqui
nada de extraordinário. A ação passa-se na hora de servir, onde o pote é
partido no seu topo com um golpe de faca, libertando todo o seu vapor
aromatizado, o que torna a refeição num espetáculo visual interessante, num
ritual dizem que muito antigo.
 |
| Testi kebabi |
De elétrico ou de barco, passamos ao
próximo bairro, Eyüp, já quase no final do Corno de Ouro. Bairro muito
conservador e religioso, por ser um destino de peregrinação islâmica.
Aconselhamos a que quando cheguem, apanhem logo o teleférico que sobe a colina.
Têm vistas maravilhosas para toda a imensidão da cidade, e parem no Café Pierre
Loti, e apreciem a vista acompanhado de um bom chá turco. Não se vão
arrepender. Pierre Loti era o pseudónimo de um escritor francês, que
imortalizou Istanbul em várias obras suas. Sempre que vinha à cidade ficava
nesta zona, pelo que o Café tem esta designação em sua homenagem. Depois deste
belo momento, desçam pela encosta, atravessando o famoso cemitério de Eyüp,
com um significado histórico e espiritual muito vincado, principalmente por
estar perto do túmulo de Abu Ayyub al-Ansari, que falaremos adiante. Muitas
figuras importantes do país aqui estão sepultadas, e muitas lápides são
artisticamente esculpidas. O cemitério ocupa a maioria da colina.
 |
| Vista do Café Pierre Loti |
Depois de uma
longa descida, e de muitos encontros com simpáticos gatos, chegamos ao bairro e
logo encontramos a Mesquita Eyüp Sultan, uma das mais sagradas e
historicamente com mais significado do país. É onde está sepultado o Abu
Ayyub al‑Ansari, um dos companheiros mais importantes do Profeta Maomé.
Originário de Medina, na atual Arábia Saudita, foi quem acolheu o Profeta
aquando da sua saída de Meca. Faleceu durante o cerco que as forças muçulmanas
fizeram a Constantinopla, em 674 d.C. Só em 1453 é que o seu túmulo foi
descoberto, tendo sido erguida esta mesquita sobre o seu local de sepultamento.
Todo o bairro vive de um movimento constante de peregrinos vindos de todo o
mundo. É costume comprar-se doces nas muitas lojas perto da mesquita e oferecer
doces às crianças. Nesta última viagem, e após a visita à mesquita, sendo domingo
de Páscoa, levámos amêndoas, que distribuímos e que fizeram as delícias de
miúdos e graúdos também.
 |
| Lahmacun |
É um dos melhores locais para se comer Lahmacun.
Parece uma pizza, mas não é. A massa é superfina, e coberta com carne
moída temperada, com tomate, cebola, alho, pimentão e especiarias como o sumac. Costuma ser servida
com alface e salsa, que se envolve em pedaços do Lahmacun. Pode parecer
estranho, mas fica delicioso com ayran, a bebida de iogurte. Façam o regresso ao
final do dia para a Ponte Gálata de barco, e vão ter mais um por do sol
maravilhoso.
 |
| Naftaline |
 |
| Naftaline |
 |
| Menu do Naftaline |
 |
| Naftaline |
 |
| Bolachas deliciosas |
 |
| Naftaline |
 |
| Naftaline |
 |
| Naftaline |
Comentários
Enviar um comentário