COREIA DO SUL - Gyeongju - Crónica 4 de 9

 

Crónica 4 – Gyeongju dias 1 e 2

Dia 1

Logo pela manhã, metro para a Estação Central de Seoul, para apanhar o comboio KTX, com destino a Gyeongju, cidade no sudeste da Coreia do Sul, já bem perto do Mar do Japão. Uma cidade cheia de história, de que já falaremos. À saída do metro, e nos túneis de acesso à estação de comboios, há passadeiras rolantes nas escadas, para transportar as malas. Uma inovação que nunca tínhamos visto.

A viagem demora 3 horas, e cumpre os horários quase religiosamente. Dentro do comboio há muitas regras: não tirar as meias, não falar alto, não colocar os pés em cima do assento. Eu falava com a Ana, repito, falava, e a funcionária do comboio veio avisar-me, a sussurrar, para falar mais baixo. Por vezes, tanto controlo, e cai-se no exagero e no ridículo. Quanto a verificarem bilhetes, nunca nos pediram. A funcionária dever ter a indicação dos lugares livres, e não é necessário verificar bilhetes. Os painéis informativos do comboio, são também em bonecos. A Coreia é sem dúvida o país dos bonecos, que existem por todo o lado, até nas esquadras de polícia.

À chegada, autocarro para a cidade, e alojamento no Gyeongju BonghwangMansion, https://www.kr-gyeongju.com/en/property/bongwhangmansion.html. Para almoço rápido, noodles na loja de conveniência ao lado do hotel, mais uns “baldes” de hidratação, e estamos prontos para a exploração.

Esta cidade foi a antiga capital do reino de Silla, que reinou entre o ano 57 AC e o ano 935 DC, sendo um dos centros culturais e políticos mais importantes da península coreana. O seu nome original era Seorabeol, que significa Capital. O que nos salta logo à vista quando chegamos à cidade são enormes montes de terra, que na realidade são túmulos.

Túmulos reais

Mas a primeira visita recaiu sobre o Templo de Bulguksa, um dos mais famosos e sagrados templos budistas da Coreia do Sul, e Património Mundial da UNESCO. 

Templo de Bulguksa

Fica a cerca de 15 km do centro da cidade, pelo que desta vez utilizámos o UBER, que funciona com a aplicação portuguesa. Calhou-nos um motorista já com alguma idade, pois aqui os reformados gostam de se manterem ativos e produtivos, e trabalhar nestas plataformas dá-lhes liberdade de horário, mas mantendo uma cultura de trabalho, muito vincada nesta sociedade. Levou umas apitadelas, mas chegámos são e salvos. O Templo foi construído no ano de 528, segundo a arquitetura tradicional coreana. Aqui encontram-se estátuas de Buda, em pedra e bronze, com mais de mil anos. 

Templo de Bulguksa

É um local de peregrinação, porque o Templo representa o conceito budista de Terra Pura, um paraíso espiritual criado para acolher almas puras após a morte. Uma visita espiritual muito gratificante que merece a deslocação. Dentro do Templo, uma pequena estátua de bronze, na forma de porco, apesar de não ter nenhum significado budista, a tradição diz que tocar no mesmo traz sorte, riqueza e fertilidade. No imaginário coreano, o porco é um símbolo de sorte e prosperidade. Sonhar com porcos é sinal de dinheiro e sucesso. Pelo sim, pelo não, também fizemos festinhas no nariz do porco.

Templo de Bulguksa

O regresso à cidade foi de autocarro, e a viagem demora cerca de 20 minutos. Os alertas de segurança por SMS continuam a cair, sendo que hoje havia um tema novo. Um javali andava numa localidade qualquer, e pedia-se cuidado.

Visita ao observatório astronómico mais antigo da Ásia. Construído no século VII, servia como torre de observação astronómica, para prever estações, eclipse e ajudar na agricultura com previsões de épocas de plantio.

Observatório astronómico

Passagem pela parte mais antiga da cidade, até uma zona de restaurantes, cafés e pequenas boutiques. Sexta-feira, final da tarde e as ruas estavam cheias de pessoas, consumindo freneticamente em todos os locais que serviam comida.


Com o cair da noite, autocarro para visitar a ponte mais icónica e famosa da cidade, a Ponte Woljeonggyo, recentemente restaurada, e que durante a noite fica iluminada, tornando o local quase mágico. Originalmente foi construída no século VII, e servia para conectar palácios e vilas nobres da região. Construída em madeira e pedra, é linda de noite, e as fotos tiradas do meio do rio ficam absolutamente fantásticas.

Ponte Woljeonggyo

Dia 2

O dia começou com o pequeno-almoço no alojamento, numa sala com uma vista deslumbrante para um dos maiores túmulos da cidade.

Túmulos reais

Depois do check-out e da guarda da bagagem na Guesthouse, a atividade seguinte seria visitar o Parque dos Túmulos de Daereungwon, e as poucas ruínas da cidade antiga que aqui existiu.

A caminho dessa visita, passámos por uma pequena padaria, de onde saia um cheirinho fabuloso, e não resistimos a entrar. Vendiam o famoso “pão de Gyeongju”, que nada tem a ver com o nosso pão, mas sim mais um bolinho doce chamado de Gyeongju-ppang

Gyeongju-ppang

Tem um desenho gravado no topo, e é recheado com pasta de feijão vermelho. Quando se assa, cheira exatamente a pão acabadinho de cozer. Apenas se faz comercialmente nesta cidade, e é um dos souvenirs mais procurados pelos coreanos que visitam a cidade. O seu nome ppang, tem origem na palavra portuguesa pão, levada por missionários portugueses, daí ser chamado pão coreano. Comprámos alguns e a dona deixou-nos literalmente a comer tranquilamente na loja e foi tratar da sua vidinha, saindo para a rua. A confiança que aqui se deposita nas pessoas é fenomenal.

Publicidade da padaria

Voltando ao parque, com mais de 20 túmulos-montículo, onde enormes quantidades de terra, cobrem câmaras funerárias de madeira ou pedra. 

Túmulos reais

Alguns têm mais de 20 metros de altura, sendo que alguns são individuais e outros coletivos, com a garantia de que são exclusivos para a realeza e nobreza. Foram feitos entre os séculos IV e VI. Imperdível esta visita, Património Mundial da UNESCO, para se entender a história deste reino e admirar a grandiosidade das sepulturas reais.  Tínhamos lido que existiria um túmulo de acesso ao público, mas não descobrimos onde.

Túmulos e Cidade Antiga

O calor estava infernal, e a floresta do parque deu-nos alguma sombra, para descanso, e ganharmos energia para visitar a Gyochon Traditional Village, uma zona de antigas casas de construção hanok. No parque de estacionamento surge um cartão de crédito no chão, que recolhemos para entregar na polícia.

Nesta tradicional vila, pode-se visitar uma casa, a Choe Jun’s House, que é um dos principais destaques desta vila. Esta casa oferece um olhar autêntico sobre a vida dos yangban, a elite intelectual e nobre da Coreia na era Joseon. A família que durante gerações ocupou a residência, ficou conhecida não apenas por ser rica, mas principalmente pela sua ética confucionista, altruísmo e vida simples. Dois gatos, completamente espapaçados com o calor, dormiam debaixo de um alpendre. No pátio, as tradicionais bilhas de cerâmica, as onggi, ainda hoje usadas para fermentar alimentos, como o kimchi, a pasta de soja, doenjang, ou o molho de soja, ganjang. Também para guardar grãos ou arroz, uma vez que a argila protege da humidade, e tem propriedades antibacterianas, mantendo o conteúdo fresco. Além disso, a argila mantém a temperatura interna estável.

Choe Jun’s House

Também é aqui que encontram outro tesouro cultural do país. Um saquê tradicional, produzido há séculos sob a mesma receita, o Gyeongju Gyodong Beopju. É apenas aqui fabricado, e a palavra Beopju, significa “licor da lei”, porque a receita é rígida e passada de geração em geração. O ingrediente principal é arroz, misturado com um fermento natural e água mineral de uma fonte local. Tem um teor alcoólico entre 13–16%. Deve-se beber frio, em pequenas taças de cerâmica. Impossível transportar e trazer uma garrafa para Portugal, viajando com mochila. Nem conseguimos descobrir local para provar.

Saqué tradicional Gyeongju Gyodong Beopju

O almoço foi num pequeno restaurante dentro da vila, gerido por duas simpáticas senhoras, e provámos noodles com pasta de feijão preto. O almoço demorou mais do que o costume, porque o ar condicionado estava apetecível e com wi-fi disponível, fomos protelando a saída.

Entretanto, continuávamos com o cartão de crédito encontrado, porque não é fácil encontrar um polícia. O trabalho é mais de esquadra, pois todos os locais estão sob vigilância eletrónica. O GPS levou-nos até uma esquadra, e não foi fácil chegar à fala com um polícia. Finalmente alguém responde aos nossos toques de campainha. Um polícia de chinelos vem ter connosco, explicámos a situação e pergunta de onde somos. Ficou muito contente, porque no ano passado tinha estado em Lisboa e Porto de férias, e gostou muito do nosso país.

Vista da Cidade Antiga

Regresso ao hotel para recolha das mochilas, e mais uma viagem de comboio, desta feita até Busan. Autocarro para a estação, mas mesmo em frente, do outro lado da rua, a padaria da manhã chamava por nós. Não podíamos ir embora sem provar outra iguaria local, o Chalbori-ppang. São dois discos tipo mini-panquecas espessas, feitas com farinha de cevada glutinosa, e unidas com pasta de feijão vermelho. As nuvens negras que apareceram, traziam água e vimos literalmente uma parede de chuva a vir na nossa direção. Por sorte estávamos a metros da paragem do autocarro e apenas levámos com alguns pingos. Aqui quando chove é a sério! Achei curioso, que no autocarro já estava pronta uma esfregona para ir limpando.

O comboio chegou com 7 minutos de atraso e a viagem para Busan durou apenas 30 minutos. Autocarro, e alojamento no Angel Hotel, https://angel.busan-hotel.com/en/, bem no centro da animação noturna da cidade, numa zona de bares e discotecas, em ruas carregadas de néon e lcds publicitários, num frenesim de marketing. Zona frequentada por muitos jovens, com lojas de roupa vintage, moda alternativa, lojas de auto-retratos, que os coreanos adoram, e dezenas de lojas com as máquinas com pinças para retirar bonecos. Estas lojas são uma verdadeira loucura, algumas até são edifícios com vários andares! Os coreanos são viciados em bonecada, e vimos alguns a passar o cartão multibanco variadíssimas vezes, sem nenhum resultado. Até há banquinhos para quem quer tentar a sorte nas máquinas mais baixas, e assim estar confortável a gastar dinheiro.

O check-in aqui também é expresso. Apenas dissemos o nome e passaram-nos a chave para a mão.

O jantar foi num restaurante de noodles, e descobrimos que estes restaurantes têm babetes, para evitar salpicos do caldo na roupa, o que vos digo ser muito útil!

Túmulos reais

Templo de Bulguksa

Templo de Bulguksa

Templo de Bulguksa

Templo de Bulguksa

Templo de Bulguksa

Templo de Bulguksa

Cidade antiga

Cidade antiga

Detalhe de loja

Ponte Woljeonggyo

Ponte Woljeonggyo

Cidade antiga com iluminação noturna



Painel informativo curioso...

Túmulos reais

Choe Jun’s House

Túmulos reais

Túmulos reais

Túmulos reais


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