ILHAS FAROÉ - CRÓNICAS

 

Mais um novo território. Desta vez as Ilhas Faróe, onde em Agosto se anda de cachecol e gorro! Mas de uma beleza fantástica e um paraíso para amantes de natureza crua e bruta e fotografia. António, economista e Ana, professora, aproveitam todas as suas férias nesta exploração. Culturas diferentes, interação com os locais, gastronomia e fotografia são as suas preferências nestas descobertas.

Ilhas Faroé Dia 1

Viagem a começar com noite de direta, uma vez que o voo sai de Lisboa às 05H00. Primeira perna para Amsterdão, segunda para Edimburgo e terceira para o nosso destino final. Esta última com um atraso de uma hora na saída, pois a lista de passageiros não batia certa.

A aterragem na ilha tem algo da aterragem em Paro, no Butão, para quem já a conseguiu fazer. O voo é rasante a um lago, com montanhas de cada lado, até se chegar à pista. Um verdadeiro espetáculo para quem gosta deste tipo de emoção. Ainda mais impressionante ficou, com as manchas de nevoeiro que haviam espaçadas, o que fez subir muito mais a adrenalina. Como curiosidade, esta pista foi feita pelos britânicos, quando estiveram nas ilhas, no período da Segunda Guerra Mundial.

As instalações aeroportuárias são modestas. Ficamos na rua, na fila, a aguardar a necessária revisão do passaporte, com uns fabulosos 9 graus, vento e alguma chuva miudinha à mistura. Tempo de ir buscar o “parceiro” de aventura que nos vai acompanhar estes dias. Um carro branco cheio de bolinhas autocolantes pretas, e que indicam todas as amolgadelas e riscos.

A seguir, hora de fazer o check in no Hostel onde vamos pernoitar os próximos dias, na Ilha de Vagar. No caminho, paragem no supermercado BONUS, para umas compras de última hora. Para minha surpresa aqui vende-se Toffee Cryspi, provavelmente a melhor barra de chocolate que já se fez no mundo! Infelizmente retirada do mercado em Portugal, ainda gostava de saber porquê!

A natureza bruta aqui é o normal. Só os 3 kms que fizemos do aeroporto até ao supermercado, já nos deixam super entusiasmados para o que se vai seguir. O tempo aqui parece ser algo que passa muito devagar, e não se nota pressa nem pressão nos locais. É tudo muito supertranquilo, e todos respeitam os limites de velocidade, que vão variando entre 50 e 80 quilómetros por hora, sendo esta última velocidade, a máxima permitida no país.

Dizem que nas Ilhas Faroé as pessoas não fecham a porta. E talvez seja mesmo assim. O check in no hostel, foi a coisa mais simples do mundo. À entrada, um quadro com o nome de quem chegaria, e o número do respetivo quarto. Por baixo, a mensagem do dono: “fui dar treino de futebol. Vão entrando que eu talvez ainda apareça hoje”.

Assim que chegámos ao quarto, ouvimos um miado, e entra por ali adentro o Garfield cá do sítio. Já ficámos grandes amigos.

Hora de fazer o “chop chop”, que aqui qualquer restaurante é para deixar um rim. A cozinha tem uma vista fabulosa para o fiorde. Se já tenho prazer em cozinhar, com uma vista destas, o prazer é redobrado. Ambiente super giro de hostel, e o jantar e parte da noite foi passado em amena cavaqueira com uns espanhóis e com um esloveno. Hoje, com o nevoeiro que está, não haverá por do sol às 22h30.

as o que são as Ilhas Faroé? Um arquipélago de 18 ilhas com uma área de 1 396 km², situado no coração do Atlântico Norte, entre a Islândia e a Noruega. Nenhum ponto das ilhas está a mais de 5 km do mar. O relevo é montanhoso e de origem vulcânica. O clima é temperado marítimo frio, influenciado pela Corrente do Golfo, o que faz temperaturas bastante moderadas para a latitude. De inverno neva, e o tempo varia bastante ao longo do dia. Ventos fortes são muito frequentes. A temperatura média no verão é de apenas 12°C.

Estas ilhas não são totalmente independentes, mas têm uma autonomia política muito ampla. São um território autónomo da Dinamarca, e não fazem parte da União Europeia. Têm governo e parlamento. A Dinamarca ainda exerce a sua responsabilidade em questões de defesa, moeda e política externa.  A moeda é a coroa faroesa, emitida em paridade com a coroa dinamarquesa.

Apenas com uma população de 54 000 habitantes, o nível de vida é elevado, numa sociedade com altos padrões de educação, assistência médica e segurança. O salário médio é seguramente superior a 50 000 € por ano, sendo que no caso dos pescadores, pode ultrapassar 150 000 € anuais. Os impostos rondam 36% do rendimento e a taxa de IVA é de 25%.

A indústria ligada à pesca é a maior fonte de rendimento das Ilhas. Peixe e produtos derivados, representam praticamente a totalidade dos produtos exportados. O turismo é a segunda indústria, seguido de produtos à base de lã. Há mais ovelhas nas ilhas do que habitantes. Já se vê com frequência no nosso país, bacalhau com origem nestas ilhas. Também em 2016 e 2017, estas ilhas muito pouco conhecidas de nós, ganharam alguma curiosidade, quando ficaram no mesmo grupo de qualificação para o Mundial de 2018, com a seleção portuguesa.

Nas ilhas, os habitantes têm acesso gratuito a todos os graus de ensino bem como assistência médica e medicamentosa. Os transportes públicos são muito baratos, havendo até helicópteros como transporte publico, que ligam ilhas mais pequenas. A taxa de desemprego é apenas de 1%.

O custo de vida é alto para nós. Uma refeição num fast food ronda os 20€; uma refeição num restaurante mais tradicional pode custar 100 €; um café custa 5 €.

Ilhas Faroé Dia 2

Depois de uma excelente noite de sono, despertar cedo porque hoje é dia do maior percurso que iremos fazer nesta viagem. Vidoy, Bordoy e ainda uma que não estava planeada, mas que apesar de pequena deverá ser uma excelente surpresa – Kunoy.

Pequenas paragens pelo percurso, a aproveitar os intervalos que o mau tempo da manhã nos ia permitindo. Apesar das boas previsões, a manhã presenteou-nos com chuva, vento e nevoeiro nos pontos altos. Daqui virá a obrigatoriedade no país de se circular de automóvel sempre com os médios ligados. Paragem também num supermercado BONUS para comprar a merenda para o almoço, que irá ser desfrutado num qualquer local paradisíaco.

Passagens por muitos túneis, uns bons, e pagos, outros grátis com 2 vias e uns que pareciam um buraco de toupeira, só com uma via. E assim conseguimos atingir o primeiro objetivo da manhã. Pelo caminho foi uma autêntica overdose de beleza natural e pequenos vilarejos, com as suas tradicionais casas de madeira, muitas delas ainda com os telhados de relva. Já que falámos de túneis bons e pagos, os submarinos, que ligam ilhas, têm um sistema curioso de pagamento destas passagens. Ou estamos inscritos num site, que vai descarregando o valor em cartão de crédito, ou, no nosso caso, com viatura de aluguer, o valor é descontado na caução que deixámos. Não são baratos. Valores por passagem que variam entre 13 e 26 €.

ota-se que a pesca e a transformação dos seus produtos, tem aqui um peso económico brutal. Dezenas de portos albergam centenas de barcos, e nos fiordes, criam-se peixes em cercados, principalmente salmão. Onde não há água salgada, há água doce, muita cor verde e ovelhas. Muitas mesmo. É outra atividade com peso na economia local.

Finalmente chegámos à Ilha de Vidoy, através da ponte Hvannasund, que liga duas ilhas. Fomos visitar a vila de Vidareidi, o ponto mais setentrional da ilha, com vistas para o mar aberto do Atlântico Norte. A Igreja destaca-se na paisagem, e dá um excelente ponto fotográfico. As casas coloridas e tradicionais, pintalgam a paisagem, criando um charme único.

A segunda localidade da ilha é Hvannasund, mais a sul, e onde está a ponte que liga à ilha vizinha de Bordoy. É também pequena e muito charmosa, com as casas coloridas, tão típicas desta região. A tranquilidade é absolutamente fantástica, só se vendo algum movimento no porto de pesca. Junto à igreja, e num local lindíssimo, aproveitámos para comer o nosso “repasto” comprado anteriormente. Mas, repentinamente a tranquilidade foi interrompida, e a Ana correu “perigo de vida”, quando duas gaivinas “furiosas” defenderam corajosamente duas crias em época de aprendizagem a voar. “Terríveis” voos picados, restabeleceram a ordem no local.

De regresso à ilha de Bordoy, as cascatas vão surgindo com muita frequência, criando movimento a uma paisagem crua de rocha. Turistas vêem-se muitos poucos, faroenses idem. Polícias ainda não vimos nenhum. Nem vimos também alguma necessidade de haver. Esta sociedade está excelentemente bem organizada, com um excelente nível de vida, pelo que a criminalidade tem uma taxa extremamente baixa. Notámos que a maior parte dos novos casais têm mais do que um filho.

A paisagem desta ilha continua a surpreender a cada curva, e as paragens vão sendo bastantes. Uma road trip fotográfica pela ilha muito interessante. Paragem em Klaksvik, a segunda maior cidade do arquipélago, onde o sol já brilhava e deu para estar de t-shirt. Nessa noite iria haver concerto com os Europe, que por aqui ainda mexem. Quem não se lembra do Final Countdown

Tempo ainda de visitar a ilha de Kunoy, porque no verão os dias são bem longos. Um ilha lindíssima, e a perdição dos fotógrafos, com paisagens de cortar a respiração, quer da ilha, quer das ilhas vizinhas. A ligação com a ilha de Bordoy faz-se por uma ponte de aterro, já que a distância é pouca. Para se chegar à parte da ilha povoada, um pequeno túnel, toscamente escavado na montanha e sem iluminação. É a única ligação. Apenas com um sentido, tem algumas escapatórias para cruzamento de carros. A vila é maravilhosa, e a visita merece a pena.

Regresso ao nosso alojamento, com mais paragens pelo caminho como seria de esperar. Mais uma paragem no BONUS para reabastecimento de Toffee Crisp. Os restaurantes, os poucos que existem, funcionam só de tarde, das 17H00 às 21H00.

Por sorte demos com uma rouloutte de Fish and Chips, que nos souberam pela vida. Um peixe absolutamente maravilhoso. Já fizemos sucesso no hostel com este manjar. Amanhã haverá de certeza mais clientes na food truck.

As previsões meteorológicas indicam bom tempo e amanhã será mais um dia de descoberta, na tentativa de chegar a algum cantinho ainda pouco mencionado. Já tivemos aqui uma dica de um local onde as baleias andam junto à costa, que incluímos de imediato na rota.

Ilhas Faroé dia 3.

Hoje, todos os deuses do céu reuniram-se e decidiram presentear estas belas ilhas com uma luz perfeita. Uma manhã sem vento e com uma luminosidade fantástica!

Dia totalmente dedicado à ilha Eysturoy.

Antes de sair, fundamental o pequeno-almoço. Como saímos cedo, a esta hora a sala estava ainda vazia, pelo que ficámos com os lugares premium. Souberam tão bem as tostas mistas a desfrutar daquela paisagem!

Dois túneis depois e estamos na ilha de hoje. Os fiordes estavam espelhos autênticos. As paisagens continuam a surpreender a cada curva. Almoço rápido em local paradisíaco, desta feita com a companhia das ovelhas e da brisa, insuficiente para os aerogeradores funcionarem. Tal como no dia anterior, é circular de carro pela ilha, que nos surpreende a cada curva que passamos, principalmente nas zonas de fiordes.

Visitámos o museu viking  de Blasastova, que ocupa uma antiga casa de lavoura do século XIX. Podemos ver como viviam os habitantes das ilhas em séculos passados, quer na sua vida doméstica, quer nas suas profissões. Apesar de pago, ninguém nos pediu dinheiro, nem vimos local algum para comprarmos os bilhetes.

Na zona de Eioi, ainda se podem ver vestígios da Segunda Guerra Mundial, com casamatas e canhões, que defendiam a entrada dos fiordes.  As ilhas foram ocupadas pacificamente pelo exército britânico em 1940, para evitar uma presença alemã no Atlântico Norte, na chamada Operação Valentine.

Passámos para a alta montanha, com estradas cénicas absolutamente lindas, quer na paisagem quer no seu traçado. Descidas fantásticas até ao mar, onde pequenos vilarejos se cravam nas margens dos fiordes.

Terminada esta ilha, e com um final de tarde magnífico, rápida incursão na ilha onde estamos, para aproveitar esta luz, que acontece poucas vezes por aqui. Um fenómeno talvez térmico, surpreendeu-nos no caminho para a cascata Múlafossur, na vila de Gásadalur, uma das cascatas mais icónicas da ilha, que desce diretamente da falésia para o mar, numa descida de 30 metros. As casas da vila, com os seus telhados de turfa, tornam o cenário idílico. Voltando ao fenómeno térmico, um rochedo marinho ficou de tal maneira envolvido em nevoeiro, que se tornou simplesmente fantasmagórico e lindo.

Nas falésias perto da cascata, por sorte vimos uma das aves mais bonitas e símbolo das ilhas, os papagaio-do-mar, ou os Atlantic Puffin. Não sendo o melhor local, ainda vimos vários casais que nidificavam nas falésias. A maior colónia está na ilha de Mykenes, que não visitámos.

Depois deste final de dia mágico, terminámos  no food truck do fish and chips, que mais uma vez nos soube pela vida.

Ilhas Faroé dia 4

O dia amanheceu bastante “farrusco”, uma situação normal por estas latitudes.

Pequeno-almoço no Hostel e zarpar que o dia vai ser longo e totalmente dedicado à ilha Streymoy.

Dois túneis depois, estradas muito cénicas, com paisagens lindíssimas, mas desfavorecidas pela neblina que teimava em ficar, chegámos à capital, Tórshavn. A cidade estava praticamente deserta, e perdermo-nos um pouco por ela, sem grande destino.

Passámos pelo bairro histórico, Tinganes, atualmente a sede do governo, com casas de madeira, vermelhas e telhados com relva. Imperdível! Passear naquelas vielas estreitas, faz-nos recuar bastante no tempo. Deu-nos também a visão da frugalidade das instalações do governo, sem grandes luxos, ou mesmo nenhuns, ao contrário do que costumamos ver. Comparem o nível de vida e vejam as diferenças.

O Porto de Vagsbotnur é também visita obrigatória, com as suas casas coloridas, que se quase se debruçam no mar. Repleto de bares e restaurantes. Por curiosidade fomos ver a lista de alguns restaurantes. São preços de outra galáxia. O maia barato tinha um menu sem bebidas a 83€ e outro um menu de 5 pratos típicos e vinho a 185€. Preços por pessoa…

Perto, o Forte de Skansin, construído em 1580, para proteger a cidade de ataques piratas. Foi também usado pelas tropas britânicas como base militar no período da Segunda Guerra Mundial. Tem uma vista magnífica para o porto, para o bairro histórico e para o mar, com a ilha de Nólsoy no horizonte. Painéis informativos contam a história do local.

Visitámos também a Catedral de Tórshavn, uma linda igreja luterana, toda branca e com o telhado azul, construída no século XVIII, Fica no centro da cidade, sendo um dos seus símbolos. Sendo domingo havia missa, e nós também fomos. Pela primeira vez numa missa num templo luterano. Muita música, todos os presentes a cantar, mas não entendíamos patavina. Hora de ir embora, mas... a igreja estava fechada por dentro. Boa forma de manter os fiéis. Depois de um puxador desmanchado, na fútil tentativa de escapar, eis que um fiel atrasado, abre a porta por fora e cá vamos a toda a brida para continuar a descobrir esta bela ilha.

O resto da manhã foi descobrir pequenos recantos, até ao almoço, num nível de estrela Michellin, onde se destacou o salame dinamarquês com pimenta e a vista maravilhosa do spot, para uma outra ilha, onde soubemos viverem apenas 15 pessoas. Tem somente uma pequena estrada, que vai da aldeia ao farol, mas, acreditem ou não, tem uma piscina pública e escola! Até nos sentimos em Portugal!

A tarde iniciou-se com baleias piloto, as tais que nos tinham dado a dica no Hostel, que nadavam despreocupadamente num fiorde. Depois...depois foi um frenesim de locais de perder a respiração. Montanha, fiordes e praias de areia preta simplesmente maravilhosas.

Algumas caminhadas são pagas, num negócio dos donos dos terrenos, num sistema muito evoluído. Os terrenos são todos vedados, e à entrada do trilho, uma cancela elétrica, e um sistema de pagamento com cartão. Quem pagar, entra!

Chuva pelo meio também aconteceu, mas sem aborrecer muito.

Outros locais visitados:

Kirkjubø, uma das vilas mais antigas das ilhas e uma das mais históricas. Foi, em tempos recuados, o centro religioso do país. Ainda se pode ver as ruínas da antiga Catedral de São Magnusur, e a casa Roykstovan, uma das casas mais antigas da europa e ainda habitada. Foi construída em 1100, e é ocupada pela mesma família há 17 gerações!

Kaldbak, uma pequena povoação, ao longo do fiorde Kaldbaksfjørður. A igreja é deliciosa, numa construção tradicional e com relva no telhado. Com apenas 250 habitantes, tem creche, jardim de infância e escola primária. Quase a entrar na vila, a cascata Týggjará dá-nos as boas-vindas.

Saksun, lindíssima e imperdível. Pequena vila remota, com uma localização única. Fica acima de uma lagoa, de areias pretas, rodeada de montanhas, com várias cascatas. Tem-se uma sensação de serenidade e tranquilidade incríveis! Apenas com 11 moradores.

Tjørnuvík, praia de surf, com ondas de qualidade, pelo que nos disseram. Quando a visitámos, dois surfistas tentavam apanhar ondas de meio metro, sem muito sucesso, num mar praticamente flat.

Kvívík, povoado com raízes históricas que remontam aos vikings. Pode-se visitar escavações que vão decorrendo.

Vestmanna, mais uma vila colorida, e muito interessante de se visitar.

Hora de regressar ao nosso Hostel, e hoje trocámos a food truck por uma nova descoberta a preços aceitáveis. Um pequeno “tasco” de tailandeses, onde nos deliciámos com um fish & chips, porque o peixe, na realidade, aqui vale a pena. Também havia pizzas, mas isso há em todo em lado.

Ilhas Faroé Dia 5

Hoje não tivemos a “sorte meteorológica” que nos tem acompanhado nesta viagem. O dia estava reservado para explorar a nossa ilha, Vagar, que é minúscula, mas a chuva mantinha-se persistente.

Enquanto tomávamos o pequeno-almoço, o tempo aliviou, o que nos deu algumas esperanças, pelo que saímos a toda a velocidade para as falésias, em busca dos Puffins, os lindos papagaios-do-mar.

Aproveitámos para parar no lago Sørvágsvatn, e admirar a estátua do NIX, em forma de cavalo. O NIX é uma criatura mítica, capaz de se transformar em diversas formas. Alguns aviões na sua aproximação à pista, vinham num voo quase rasante ao lago.

Estando perto do aeroporto, paragem também para comprar a bandeira, que terá o seu lugar na minha mochila de equipamento fotográfico e que me acompanha em grande parte das viagens.

A luz manteve-se excelente, mas com nuvens ameaçadoras no horizonte. Os Puffins até que colaboraram, e vimos bastantes. Sem teleobjetiva, não foi fácil captar um, numa foto decente. São pássaros muito irrequietos. Visita também a uma pequena aldeia instalada muito perto das falésias.

A chuva, entretanto, voltou a cair, e com intensidade. Regresso rápido ao carro, e fizemos a boa ação do dia, ao dar boleia a um casal de jovens italianos, que fizeram uma caminhada, deixando o carro do outro lado do túnel. Vieram pelo exterior da montanha e iriam fazer o túnel. Teriam 1 quilómetro de chuva intensa e 1,3 quilómetros de um túnel sem iluminação, tipo buraco de toupeira.

Regresso antecipado ao Hostel para almoço, porque a chuva não dava tréguas.

Curiosidades sobre as Ilhas Faroé:

- Não se vê nenhum lixo nas ruas.

- Existem um pouco por todo o lado WCs públicos que estão completamente equipados e muito limpos.

- Nota-se que existe um espírito comunitário grande, entre os locais. Por exemplo, vê-se em todo o lado caixas de plástico perto de estradas. Abri uma, e tinha sal e uma pazinha. Quando é necessário, quem estiver a utilizar a estrada deve espalhar.

- O sistema remuneratório é mais elevado para quem tem mais anos de trabalho. Aqui chama-se experiência, em Portugal, país de “inteligentes”, chama-se “vícios” e descartam-se pessoas extremamente válidas.

- O helicóptero é transporte público. As ilhas mais remotas e sem ligação por túnel, têm serviço de heli transporte, disponível 24h para emergências. Muitas vezes as compras são feitas online e entregues de helicóptero.

- As ilhas são totalmente verdes. O prado impera por aqui. E é um prado bonito e fofinho, que nesta altura do ano todos apanham para armazenar para o inverno.

- Nas igrejas luteranas existem placares com números. Em todas elas os números são diferentes. Finalmente alguém nos explicou: são os salmos que se cantam na missa de domingo e que vão variando de igreja para igreja e de domingo para domingo.

- Os supermercados vendem muita lã, das muitas ovelhas locais.

- Nos túneis com um sentido e sem semáforos, existe um sistema de prioridades interessante, e que todos respeitam.

- Não existe GPL.

- Não há cabos de eletricidade aéreos, tirando os transportadores. Todos os cabos de ligação para casas são subterrâneos, para não estragar a paisagem.

- As lojas, nas pequenas localidades, vendem de tudo, desde roupa a adubo.

- Algumas pequenas aldeias, têm à entrada uma caixa metálica com produtos locais, como compotas, legumes, biscoitos. Todos os produtos estão etiquetados com preço, quem tiver interesse retira e coloca o valor, normalmente numa velha cafeteira.

- Cada cercado de salmão, contém cerca de 100.000 peixes. O navio que está sempre junto aos cercados, é o distribuidor de ração.

- A atribuição de matrículas a veículos profissionais é muito simples e prática. Os táxis são por exemplo TAXI 20, e os autocarros BUSS 19. Os particulares, duas letras e três números: MM 345.

Da parte da tarde, a chuva deu uma trégua, o que permitiu mais uma saída. Fomos ver Trøllkonufingur, que significa dedo da mulher. Um monólito de 313 metros de altura, que sai do mar. Como em muitas outras situações, tem uma lenda associada. Dizem que é o dedo de uma bruxa, que veio aqui para entregar as ilhas à Islândia. Só que quando o sol nasceu, a bruxa transformou-se em pedra, caindo no oceano. A caminhada é tranquila com cerca de um quilómetro e meio. Durante o percurso, vamo-nos deparando com casas isoladas, muito simples, mas com vistas deslumbrantes.

Tempo ainda para visitar a vila de Sandavágur. A localidade tem uma história muito antiga. Foi descoberta no início do século XX uma pedra com uma inscrição escrita por um viking, que afirmava ser o primeiro colono daquela área. A pedra está na Igreja, que também merece a visita. Sobressai na paisagem, com o seu telhado vermelho. Tem uma praia, mas não sei quem a utilizará. Nós estamos de gorro e casaco de penas, em agosto!

Esta praia é também conhecida por uma tradição das ilhas, que remonta aos vikings, que é a caça à baleia, num tema que gera muita controvérsia. Os locais chamam esta época de Grind. Neste período, são caçadas baleias-piloto e golfinhos de lateral branca. Quando um grupo de baleias é avistado, os habitantes cercam os animais com pequenos barcos, conduzindo-os para baias rasas, sendo que esta é uma delas. Os animais são abatidos na praia e a carne e a gordura são distribuídas entre os locais. Uma tradição que um dia terminará, uma vez que uma parte importante da população já não concorda com esta prática, e as quotas de captura têm estado a ser reduzidas.

Mais um intervalo para São Pedro “regar” e deslocação até uma vila próxima, onde se iniciava um jogo de futebol. Da equipa da casa, apenas um adepto se fazia ouvir. Tocava com veemência um tambor e gritava algo, para nós impercetível. Ainda vimos um pedaço do jogo, mas a chuva estava teimosa. Hora de ir jantar. Adivinhem onde? Fizemos a felicidade dos tailandeses, com uma despedida de  Fish & Chips. Para amanhã a previsão é de vento sem chuva e para quarta, dia de saída, rajadas de 80km. Espero que consigamos sair.

Ilhas Faroé dias 6 e 7

Dia de fazer check out no nosso Hostel, que apesar do aspeto exterior, era bem catita e com um ambiente muito bom. Por aqui, até um velho autocarro pode ser alojamento. Neste caso era um complemento do Hostel e muito utilizado. A manhã foi muito prometedora no que dizia respeito ao clima. Um sol bom, mas que rapidamente se desvaneceu. Nuvens, frio e muito vento, passaram a ser o normal do dia, tal como a previsão indicava no dia anterior. Os meteorologistas acertaram, com pena nossa.

Este dia, também reservado para a nossa pequena ilha, seria de caminhadas e antes da chuva regressar ainda conseguimos fazer duas, em paisagens de cortar a respiração.

Regressámos a Sandavagur, para uma caminhada ao longo do fiorde, e fizemos um percurso alternativo, perto do dedo da mulher. Nota importante para quem vier visitar o país: tragam botas de montanha, porque são bem necessárias, mesmo no verão. De preferência das altas, para protegerem os tornozelos, porque há caminhos muito escorregadios e rugosos. Tempo ainda para descobrir um pequeno construtor naval, que só respondia a perguntas entre as 14h e as 16h. Ficámos algum tempo a vê-lo trabalhar, em silencia, numa embarcação típica local.

Depois fomos até Bøur uma pequena vila muito acolhedora. O carro tem de ser estacionado à entrada da localidade, como em grande parte das pequenas vilas, para gerar pouca confusão e manter a tranquilidade dos espaços. Placares indicam aos visitantes, que não devem espreitar para o interior das habitações, respeitando a privacidade das pessoas. As casas mais recentes têm grandes janelas, de forma a deixar entrar bastante luz, que deve ser muito pouca nos meses de inverno. Nas aldeias, as casas continuam a surpreender pela sua beleza e pelo cuidado na sua manutenção. Esta vila tem uma praia de areia preta, e é excelente para passear à beira-mar. Um lindo cenário para desfrutarmos de mais um Toffee Crysp.

Voltámos de novo a Gasadalur, onde ontem a chuva nos forçou a ir prematuramente para o carro. Vila com 12 habitantes, e até 2006, data em que o túnel abriu, o único aceso era uma longa caminhada, contornando a montanha. O carteiro vinha aqui 3 vezes por semana, fazendo esse percurso…

A temperatura teima em manter-se nos 7 graus, que com o forte vento, dá uma sensação térmica nada interessante. Aproveitámos para dar uma lavadela ao carro, numa mangueira que surgiu num pequeno desvio, no meio do nada, e onde, pelos vistos, os locais lavam os carros. Até tinha escova e tudo.

Passagem pelo supermercado para nos livrarmos das moedas. Como estávamos com tempo, deu para “apreçar” alguns artigos, como dizia a minha avó, numa das suas atividades preferidas. Uma garrafa de 1,25 L de água local custa 3,5 euros. A sorte, é que aqui pode-se beber água em qualquer lado. Até nas cascatas! As azeitonas, normalíssimas, por kilo, custam 30 euros! Produtores portugueses de azeitonas: o que esperam para exportar para aqui?

Check-in no alojamento de hoje, em Sorvagur, o último da viagem. Nunca tínhamos alugado uma caravana. Foi hoje. Pelo que nos apercebemos, é um negócio em crescimento por aqui. Nem imaginam a quantidade de caravanas que existem nos quintais dos moradores. Quando não as utilizam, alugam-nas.

Entrega da viatura, 1037 quilómetros depois, num método também virgem para nós. O balcão só abre quando há voos. Esta tarde não havia chegadas. Nesse caso, deixam-se as chaves num cofre e já está. Daqui a uns dias alguém dirá alguma coisa. Não há verificação de possíveis danos, e essa responsabilidade cabe em grande parte ao utilizador, que deverá assinalar e fotografar algo que tenha acontecido. Da caução que deixámos, via cartão de crédito, vão descontar o valor a pagar pela utilização dos túneis. Estranho, mas na realidade prático.

Como entregámos o carro, e só partimos amanhã, tivemos de caminhar até à caravana, que está a 20 minutos do aeroporto. Amanhã de manhã, lá pelas 05H00, nova caminhada no sentido inverso e, 3 voos depois, chegaremos ao calor.

Visita ao supermercado BONUS local, para compra do jantar, cozinhado na caravana. O vento cada vez soprava mais forte, abanando fortemente o nosso alojamento, o que até nos embalou para adormecer mais rápido, mas deixando a dúvida se haveria voos ou não, por eventuais ventos fora dos limites.

Às 04H45, e com duas mochilas, uma atrás e outra à frente, caminhada até ao aeroporto, num percurso de 2 quilómetros. O vento soprava forte, mas ouvimos um avião a aterrar. Se aterrou, também descolará.

Faroé-Copenhaga-Amsterdão-Lisboa era o percurso de regresso.

Apesar da tempestade que se estava a abater, não houve problemas com o vento, que reparei, estar enfiado com a pista. Estes pilotaços daqui, devem estar habituados a voar com porrada valente, porque o clima não é fácil. Até reparei num pormenor com as assistentes de bordo, que foi o uso de sapatos rasos, que deve ajudar ao equilíbrio em voos complicados.

Resumindo esta viagem, mais uma vez percebemos, que a verdadeira viagem não está apenas em visitar lugares, mas sim absorver a forma como eles nos transformam. Aqui aprendemos a desacelerar, a relaxar, a saber contemplar o silêncio, uma constante nesta viagem. Levamos as botas enlameadas, mas o coração cheio, de uma natureza que fará parte de algo maior, e muito mais bonito do que apenas algumas fotografias possam sugerir.

 

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